A lenda da macumba

maidMoro desde 1986 num apart-hotel na Barra da Tijuca, vim para a Barra em 1984, mas para um apartamento grande que recebi como parte de pagamento, metade, do que vendi no Leblon onde morava anteriormente.

Comprei na época este apartamento por trinta mil dólares, divididos em 12 vezes, e dei a maior sorte, por que logo na segunda parcela veio a deflação. É muito pequeno, mas tem uma planta muito bem bolada. Era anunciado como double flat, quer dizer, tem uma parte independente, a entrada social tem uma porta por fora e duas por dentro, fazendo com que um lado tenha privacidade, com varandinha e banheiro. Do outro lado tem a cozinha micro com uma janela aberta para a varanda que eu fechei com portas de vidro, o meu quarto, outro banheiro e a sala. O piso internamente tem 49 metros quadrados, mas na escritura vem escrito 70, acho que devido aos dois banheiros, à cozinha, às duas varandas, sendo uma bem maior que a outra. Talvez tenham contado área de garagem também, não sei.

São dois prédios com 280 apartamentos no total. Cheio de solteiros, na grande maioria bêbados, e sempre tive muito medo de que esquecessem uma panela no fogo que causasse um incêndio no prédio, o que realmente veio a acontecer uma vez. Era uma panela elétrica. O outro incêndio foi horroroso, na telefonia do prédio, bloco 1, exatamente onde eu moro. São quinze andares. Desceu todo mundo correndo pela escadaria abaixo, tinha gente até praticamente nua, desesperada, apavorada, com receio de que os bombeiros demorassem muito a chegar e o prédio todo pegasse fogo.

Temos direito a uma hora de “secretária” por dia. Os vizinhos vivem reclamando das moças e trocando de empregada quase todo dia. Mas eu estou com a Odetinha há uns vinte anos, dou muita sorte com empregados, sempre dei, mas também não fico enchendo o saco delas. Deixo tudo aberto e ninguém nunca me roubou um grampo sequer. Saio batendo a porta, nem tranco, só às vezes, quando sei que vou demorar muito. Ultimamente tenho passado o papaiz, com medo de chegar em casa e encontrar meu vizinho de porta, bêbado, deitado na minha cama, ou, quem sabe, cozinhando no meu fogão.

Odetinha, antes de vir trabalhar aqui, tinha um bom emprego na Sendas do Leblon, mas teve um derrame. Não consegue mais ler, eu pensava que ela precisava de óculos, dei, mas não adiantou. Aí eu perguntei qual era o problema, se ela não queria usar os óculos, não lia meus recados, eu só podia concluir então que ela era analfabeta. Mas ela disse que não, que foi por causa de uma macumba que fizeram contra ela.

Aí eu fiquei encasquetada, que macumba tinha sido essa? Perguntei às colegas dela na governança, e me responderam que reza a lenda que Fátima era muito bonita e desejada, ela é negra retinta, e aí as colegas da Sendas macumbaram ela. Só rindo, mesmo. Ela teve o derrame, está atualmente com problemas circulatórios, tem muitas dores nas pernas e volta e meia tem que se ausentar do serviço. Analfabeta era impossível de ela ser, porque se trabalhava como caixa na Sendas, tinha que ter raciocínio rápido, saber fazer contas, e ler e escrever.

Quando ela está de férias, vem a Rose, que é branca, casada com um negro, e anda muito feliz por que sua filha entrou na Universidade pelo sistema de cotas, se formou como Engenheira de Petróleo e já tem um excelente emprego. Porém, a Rose tem que pegar quatro conduções para chegar aqui, a passagem vai subir para R$3,05, sendo assim vai consumir todo o salário mínimo que ela ganha. Então ela arrumou um emprego numa fábrica próxima à casa dela. Fiquei muito chateada quando ela me disse que era o último dia dela aqui. Isto foi esta semana.

Odetinha voltou das férias, ela não tem despesas, diz que gasta tudo o que ganha com comida para ela e o filho. Ela é separada e o ex-marido mora com a filha que é lésbica, casada com outra moça.

Sinceramente, eu não consigo entender como as pessoas maltratam tanto os empregados. Brigam por qualquer bobagem, reclamam de tudo, dizem que foram roubadas. Aqui não tem isso, elas são revistadas na saída. Esse pessoal é maluco, ranzinza, e não tem o menor respeito com os trabalhadores, que têm uma vida desgraçada. É por isso e outras coisas que eu era PT ferrenha, um pouco de justiça social é necessária.

Concluindo a história, nós nos amamos, realmente é um caso de paixão, Fátima e eu. Mandei a foto dela para ser publicada junto à crônica.

 

 

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2 Resultados

  1. Debora Dumphreys disse:

    Muito boa, Rosane! Acho que se a gente tivesse ideia da vida que esses trabalhadores têm, deixaria muito mais coisas por menos, seria mais tolerante. Ai da gente, sem eles!

  2. noga disse:

    Rosane, hoje mesmo eu tive uma conversa dura com a Ivete, ela anda distraída, deixando o serviço a desejar, principalmente porque por conta de tanto trabalho eu larguei ela pra lá, mas vou mudar. A conversa foi boa. Eu quase disse adeus, mas ela é boa pessoa, aceitou as críticas, vale a pena investir um pouco. Boa crônica! Bjs

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