A insustentável leveza da paixão

“Um dos maiores prazeres que experimento com as mulheres é quando as vejo escovando os dentes”, escreve Eduardo Haak, autor da KBR, em um de seus contos mais recentes divulgados na nossa comunidade. Não tenho a mesma sorte. Um de meus maiores tormentos conjugais é a crítica que Alan faz à minha… maneira de escovar os dentes. Ele diz que os escovo feito criança, pior, esta semana reafirmou que se lembrou de mim ao assistir na TV, pela milionésima vez, ao ancestral “Rain Man” de Dustin Hoffman, o qual no filme, segundo Alan, escova os dentes igualzinho a mim: com o cotovelo esquerdo apoiado na pia, a boca babando e a pasta espalhada pelo rosto numa bagunça piramidal, branca, às vezes verde ou azul, dependendo da marca do creme dental.

Mas, gente, tudo o que faço é segurar com a mão pra que não se molhem meus longos cabelos grisalhos — que alguns diriam, deviam ser tingidos e cortados, ou, no mínimo, “domados”, pra ficarem mais bem comportados — e evitar que a pasta caia fora da pia… Não sei se já comentei isso antes em alguma outra crônica, pode até ser, ando esquecida como dá pra ver, mas minha tia quase nonagenária, que deus a conserve, me deu um excelente conselho do alto de sua experiência de 62 anos de casamento, argh: “Fecha a porta do banheiro!”

Pois é. Parece incrível que um casal tão erotizado — a ponto de eu ter escrito um romance inteiro, quase um tratado (e quase 100 mil exibições do nosso vídeo no YouTube), sobre nossas trocas sexuais em forma de literatura online — hoje em dia limite seu tesão à provocação constante do parceiro no banheiro: mudam-se as regras, mas o jogo se mantém. Eu, de minha parte, ando decepcionada comigo (ui!): sempre me gabei de julgar-me capaz de segurar um longo relacionamento — longo de anos, ou décadas de bodas, vocês me entendem, era esse o meu plano original — à base de um eterno gozo apaixonado, porém, como todos sabem e com a licença do devido clichê, na prática a teoria é outra. O tesão passa e o amor fica, ai, deus, que horror. E nem sempre é a melhor forma de amor, ui, desculpem mais uma vez.

Na vida conjugal de um casal idoso normal tem alguns obstáculos que ninguém se atreve a comentar, é de amargar, como a xoxota meio seca e o pau… ah, melhor deixar pra lá, vai que isso nem é normal, não é mesmo? E, de qualquer maneira, ninguém confessa mesmo a sua normalidade sexual, a não ser que seja uma normalidade de primeira, sabem como é, um tesão que excede, três ou quatro eventos diários de pegação rotineira.

Alan e eu não só tivemos isso bem depois dos 50 anos de idade, mais ele do que eu, como até contabilizamos, e quando a contagem passou de mil publicamos em livros os resultados da pesquisa, mas nisso, claro, lá se vão os sete anos de casamento, que no nosso caso de íntimo e perene relacionamento, 24 horas por dia, dá aí uma média de uns, digamos, 42. É quase bodas de ouro, gente, concentradas num metal tão denso que ainda não foi inventado pela avançada biotecnologia. Mas não tão leve, eu diria, como aquele que foi divulgado no outro dia, capaz incrivelmente de se sustentar sem problema sobre um delicado dente-de-leão, não sei se vocês viram ou não.

E já que estamos em ritmo de confissões, devo a vocês o relatório completo das minhas esparsas tentativas de sustentar o tesão conjugal, in vino veritas. Indo contra os meus mais caros princípios, cheguei até mesmo a comprar a tão propagada lingerie sensual, preta, rendas, transparência e o escambau, que não só não provocou aquela excitação ideal como na verdade me enjoou um bocado por seu óbvio desconforto sob o cobertor. Aliás, falta às revistas do setor uma compreensão maior do que é verdadeiramente o amor. Um casal normal, com os altos e baixos da rotina matrimonial, se entende até mesmo na falta de desejo sexual, quer dizer, amar não é exatamente comer com os olhos o outro, como já dizia aquele filósofo profundo…

Agora, toda regra tem exceções, e com a gente não é outro o mundo. Por outro lado, a vida tem suas surpresas… o destino é mesmo um negócio danado. Pois assim foi que no outro dia eu estava trabalhando num novo vídeo-release da KBR — pois é, esqueci essa: nada é tão bom pra abaixar o teor sensual de uma relação quanto o excesso de ralação profissional — quando contei ao Alan, que como todos sabem é gringo e não sabe nada do Brasil, e menos ainda da nossa Seleção (desde que ele mora aqui, francamente, a querida Canarinho perde a cada copa que passa mais de seu apelo patriótico-viral), que pretendia usar como trilha o jingle tradicional do antigo Canal 100. Era um vídeo sobre futebol, claro, entre todos os assuntos de texto um dos que me empolga menos, desculpe aí, galera. Mas o livro a que se referia era bem legal, e por isso acabei me animando.

Vai daí que comecei a cantarolar pra ele na cadência do samba (que bonito é, não é?) e saí pela sala agitando os braços e sacudindo a bunda como nunca antes em nossos sete anos de convivência intercultural. Dizem que gente é gente em todo lugar, e que no amor não dá pra gente se estranhar, mas que nada, no dia-a-dia da família o desencontro chega a ser abissal, duro de aturar. Pois qual não foi o meu espanto ao ver que o velho escrete vermelho azul e branco levantou sua bandeira em uma fração de segundo! Foi gol! Fenomenal!

Além do mais, no momento, estou “trabalhando” num projeto secreto que garanto a vocês, pelo menos para o casal há de resultar num renascimento romântico sensacional, tudo marcado e acertado para o fim desta temporada de crônicas que, como vocês sabem — e se não sabem, fiquem sabendo agora —, tem data e hora para terminar, e vai terminar em livro: o meu aniversário de 60 anos em janeiro. Só faltam cinco.

Escrever crônica toda semana religiosamente, confesso, não é trabalho pra mim, pelo contrário, é o que me garante o prazer semanal que, devido a alguns perrengues habituais, no plano do lazer não tenho conseguido garantir. É da vida. Mas 60 anos só se completam uma vez na vida, e com um marido amoroso ao lado, quem diria… e se tudo der errado, como eu sempre imagino que pode dar — é, sou doente mental, eterna vítima de trauma emocional, fazer o quê —, terão sido apenas 70 dólares jogados no lixo.

E um bom domingo procês.

 post publicado tambem no Noga Sklar

 

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