A herança maldita do aposentado – parte dois: O casamento

(Adaptado do conto de E.T.A. Hoffmann, “A mulher vampiro”)

 

Fredegunda não verteu uma única lágrima pelo falecimento do pai. Arcádio também não. Aliás, ele não chorava desde a morte de seu cachorro Tião, picado por uma cobra surucucu, quando os dois amigos participavam de uma caçada no Vale do Ribeira.

No dia seguinte à missa de sétimo dia, temeroso de perder a oportunidade, o aposentado observou que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar as núpcias. Ao ouvi-lo, Fredegunda deitou-lhe os braços ao pescoço, e, derramando copiosas lágrimas, exclamou:

 

— Sim, meu amor, o casamento será a minha salvação!

Em uma cerimônia simples, trocaram alianças na igrejinha da vila. Pra evitar falação, não fizeram festa.

A lua de mel, passada no Pesque e Pague do Juca, foi um fiasco. Durante o dia o inativo ficou dando banho em minhoca, e quando chegou a noite, quarenta e cinco minutos antes do momento glorioso, Arcádio deu início ao ritual de elevação peniana.

Ansioso, depositou a dentadura no copo em cima da pia e engoliu, de uma só vez, duas cápsulas da pílula milagrosa. Olhou-se no espelho, com uma pinça arrancou vários pelos das narinas, outros das enormes orelhas. Abrindo a boca banguela, escovou as gengivas, depois a língua, cuspindo uma gosma amarelada — efeito dos remédios que tomava. Bochechou com Anapion e bafejou no espelho. O hálito melhorara.

Abriu o chuveiro na água fria e banhou-se, cantando “Boemia”, de Nelson Gonçalves. Enquanto se esfregava com a bucha de rama, notou que a pílula começava a surtir efeito: depois de dez anos de secura, ele ainda estava vivo. Parou de cantar, esforçando-se por raspar a sola dos pés, encardida pelo uso de botinas pulverizadas com polvilho antisséptico Granado. Desligou o chuveiro. No silêncio do chalé, ouvia-se apenas o coaxar dos sapos. O inativo estaria ouvindo demais? Ou seria alucinação auditiva? Parecia-lhe que o martelar dos batráquios ficava cada vez mais forte e próximo, como se uma orquestra de sapos estivesse prestes a invadir o quarto do casal.

Recolocou a dentadura na boca, vestiu a cueca samba-canção e saiu. Ao adentrar a câmara nupcial, as artérias latejantes do ancião congelaram-se diante da fantástica visão. A esposa, nua, o corpo leitoso, de olhos bem vendados, mãos amarradas na cabeceira, esfregava as pernas, lânguida: “Venha, meu querido.”

Foi então que ele ouviu um estalo seco, partindo não se sabe de onde. Ao voltar os olhos para o centro da cama, o aposentado viu surgir um sapo esverdeado, a boca imensa capaz de engolir um frango inteiro, inflado, olhos esbugalhados. Ato contínuo, a intanha pôs-se a mover a língua pra fora e pra dentro, bem em cima da virilha da esposa. E Fredegunda, gemendo, de olhos vendados, de nada se apercebia. Na certa, a virgem imaginava tratar-se dos carinhos do marido!

Eis que o enorme sapo, percebendo a presença do inativo, armou um bote e pulou pra cima dele. “Mamãe do Céu!” Apavorado, Arcádio só parou de correr quando se encontrou dentro da lagoa. Terminava assim a lua de mel do aposentado.

***

Na flor dos sessenta e oito janeiros, para satisfazer os caprichos de uma fêmea de dezoito anos não basta tomar droga contra a impotência.

Fredegunda, outrora tão carinhosa, foi mudando sensivelmente. Os olhos fundos e o rosto pálido pareciam indicar doença. Afastava-se de todos, e quando o marido a procurava, de noite, na cama, alegava sempre uma latejante dor de cabeça. Em vão, Arcádio se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Para poupá-la de preocupações desnecessárias, o aposentado deixara de lado o buraco em que se metera, ao assinar a opção pela Previdência Complementar. Desde o mês seguinte à assinatura do fatídico documento, tivera uma queda de sessenta por cento no salário, vendo-se obrigado a vender o apartamento que possuía na capital para arcar com as despesas domésticas, sem mencionar que os filhos ameaçavam interditá-lo, acusando-no de pródigo.

Um domingo, depois de voltarem da reza noturna, Fredegunda caiu em profundo abatimento, passando dois dias acamada. Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e o rosto se lhe cobria de palidez mortal. Arcádio andava pela casa, inquieto, varando a madrugada acordado. Havia no estado da esposa algo de inexplicável, ela não tomava o mínimo alimento, manifestava nojo por todas as iguarias, especialmente pela carne. Estranhamente, Fredegunda só aceitava milho cozido. Pouco falava; trancava-se no quarto ou buscava os recantos mais solitários do sítio.

Atormentado, o aposentado mandou chamar da capital uma celebridade médica. O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa e os desejos por estranhas comidas pareciam indicar que Dona Fredegunda estava grávida. Instintivamente, Arcádio encheu-se de orgulho, sem deixar de notar que depois de duas horas de consulta, a portas fechadas, Fredegunda lhe pareceu melhor, mais relaxada, o rosto corado.

Porém, dois dias depois a mulher caía novamente em profunda melancolia. Dona Fredegunda recusava-se a tomar os remédios, apesar das súplicas do fiel esposo. Sem saber o que fazer, Arcádio resolveu aceitar a carona do colega para comparecer à reunião da Associação dos Aposentados, ocasião que ele aproveitaria para ir pessoalmente conversar com o médico da esposa. Tirando as más notícias — uma idosa que morrera na fila do Hospital da Previdência, a merreca de aumento anunciada pelo governo —, Arcádio ouviu mais uma vez da boca do doutor que o estado da esposa era absolutamente normal.

— Coisa de mulher grávida — sentenciou o ginecologista, entregando-lhe o resultado do exame.

Grávida? Mas, grávida de quem? — matutava o inativo, no caminho de volta para casa, coçando a cabeça no exato local onde lhe restara um tufo de cabelos.

Passaram-se semanas e meses sem que a esposa se alimentasse a contento, exceto de milho, que ela agora só aceitava se fosse colhido verde — e na espiga. E quando tomava água, Fredegunda levantava a cabeça e dava três pulinhos, antes de engolir o líquido. O mistério continuava impenetrável. Chamado novamente, o médico vacilava: havia ali qualquer coisa que escapava ao saber humano.

Na décima visita do doutor, Arcádio, desconfiado, percebeu claramente que o estado da esposa ficava mais e mais enigmático, e as visitas do especialista, mais e mais frequentes.

 

continua…

 

 

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