A herança maldita do aposentado – final

(Adaptado do conto de E.T.A. Hoffmann, “A mulher vampiro”)

Era uma tarde de novembro. Fazia um calor infernal. Sentado no alpendre, Arcádio notou no telhado várias telhas quebradas. Olhou ao largo; a cerca clamava reparos, a estrada virara uma cratera e o mata-burros há muito fora levado pela enxurrada. Mas de onde tirar o cascalho, se ao aderir à Previdência Complementar o Governo lhe tungara sessenta por cento do salário?

Absorto em preocupações, Arcádio deparou-se com o franguinho herdado do pai — agora um galinho crescido, preto, com duas faixas de penas brancas nas asas — tranquilamente ciscando pelo terreiro. Vejam vocês os tormentos por que passava o infeliz, pois naquele instante, tomado por fúria assassina, resolveu, sem mais nem menos, descontar seu infortúnio nas penas da frágil avezinha.

Pegando um cascalho, atirou-o no bípede, sem conseguir acertá-lo. O bichinho saltou, mas o aposentado não desistiu e atirou outra pedra e mais outra, agora vociferando:

— Ah, desgraçado, criatura abjeta! Herança maldita, você desgraçou minha vida — bradava o aposentado, em lágrimas, cambaleando pelo terreiro.

— De hoje em diante, eu te amaldiçoo, galo alvinegro! Antes tivesse herdado uma cascavel! — e gargalhava, possesso, jogando pedras a esmo, até que uma delas acabou por acertar a cabeça de uma angola desavisada, que morreu por ali mesmo, estertorando em círculos.

Estranhamente, depois da saraivada de pedras, Arcádio sentiu-se mais calmo. A situação chegara ao limite do suportável. Com os nervos em pandarecos, por coisa pouca ele estourava. Não suportava mais olhar para a jovem esposa, que definhava a olhos vistos. Com o salário reduzido em mais da metade, e sem plano de saúde, a doença da mulher já esgotava sua capacidade financeira, e pra piorar, uma crise nas bolsas transformava em pó o dinheiro que ele ainda não recebera do Fundo de Previdência. A desgraça, porém, ainda haveria de ir mais longe.

Um dia, o caseiro do sítio, aproveitando que o patrão encontrava-se sozinho, avisou-o de que a esposa saía todas as noites de casa e só retornava de madrugada. Arcádio estremeceu, e se lembrou de que havia tempos, ao soar das doze badaladas noturnas, se apossava dele uma sonolência extraordinária. Atribuiu-a a qualquer remédio que a mulher lhe ministrava sem que ele desse por isso, para que ela pudesse deixar clandestinamente o quarto do casal.

Aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, o aposentado acabou por cancelar a décima quinta visita que o médico faria à esposa. A noite seguinte iria desvendar-lhe o mistério abominável, causa única do estado singular de Dona Fredegunda.

Tinha ela por hábito ir deitar-se tarde, depois do chá da meia- noite, que só Arcádio tomava. Era ele tomar a bebida, e tudo que nele ainda há pouco estivesse retesado passava a padecer de uma moleza morna. Naquela noite, porém, teve ele o cuidado de não tomar o chazinho trazido pela esposa. Meteu-se na cama, leu uma passagem da Bíblia como de costume, e não sentiu a sonolência habitual. Ainda assim, deixou pender a cabeça no travesseiro e fingiu que dormia profundamente.

Minutos depois, a esposa se levantou. Sem fazer o mínimo ruído, aproximou uma luz ao rosto do marido, examinou-o e saiu devagarinho do quarto. O aposentado abriu um olho, depois o outro, ergueu-se, embuçou-se com uma manta e seguiu a mulher cautelosamente. Fredegunda já ia longe, mas como era noite de lua cheia, avistava-se distintamente a sua camisola diáfana, a pele branca luzindo ao vento ateu. Atravessou o terreiro e dirigiu-se para o galinheiro, desaparecendo por trás do barracão. Arcádio seguiu-a, esticando as pernas em corrida; achou aberta uma janela lateral e espiou.

Dentro do galpão, ele viu, à claridade do luar, o espetáculo medonho, indigno do mais sanguinário dos filisteus: frangos, frangas, pintos e pintas, galos e galinhas formavam um círculo. E bem no centro, regendo a inacreditável macumba, o espécime que herdara do pai — o amaldiçoado galinho do pescoço pelado. Fechando o círculo, as galinhas poedeiras, de penas desgrenhadas, num cacarejo infernal, dilaceravam com o bico, como feras, o cadáver da galinha d’Angola que Arcádio matara a pedradas no dia anterior. E Fredegunda estava no meio delas!… Esfregando-se no galinho alvinegro!

Com que pungente angústia e profundo horror Arcádio fugiu àquela cena grotesca! Firmando a vista, percebeu que a mulher lançava olhares lânguidos para o maldito galináceo. É claro! Era com o desgraçado que sua esposa o traía!

Confuso, afastou-se do local e correu ao acaso pela capoeira, num galope ensandecido. Veio a cair em si de madrugada, quando se encontrou em frente à porta de casa — o pijama em farrapos, a pele dos braços arranhada por urtigas, os olhos em fogo e as narinas estufadas.

Entrou rápida e maquinalmente pela cozinha, desembainhou o facão guarani, atravessou a sala e penetrou no quarto às escuras. Acendeu a lamparina; a esposa dormia serenamente. Mas tanto não fora sonho ela sair de casa, que suas vestes ainda exalavam morrinha de galinha. Ainda assim, Arcádio tentou se persuadir de que tudo não passara de uma alucinação. Seria efeito do novo remédio?

Fredegunda, o semblante tranquilo, decerto sonhava com anjos e querubins. Olhou-a por um longo instante; a visão do corpo franzino da esposa, os bracinhos estendidos na cama, no rosto pálido um sorriso de criança, dissiparam-lhe por completo a ideia assassina. Será que a coitadinha fora atacada pela gripe asiática? — perguntou-se, lembrando-se do noticiário do Jornal Nacional.

Acordou por volta das dez da manhã. Naquele mesmo dia, sem esperar que a mulher despertasse, foi dar um passeio a cavalo. O frescor da manhã, os aromas das árvores, o gorjeio dos pássaros fizeram com que ele se esquecesse dos fantasmas noturnos. Voltou mais tranquilo para casa e sentou-se à mesa com a esposa. Quando, porém, a empregada servia um prato de carne cozida, Fredegunda demonstrou repugnância e exigiu uma espiga de milho, Arcádio, reconhecendo a verdade dos fatos, exclamou com violência:

— Ah! Mulher abominável, galinha do capeta! Chocadeira de Mefisto! Bem sei de onde provém sua aversão pelo manjar dos homens. É com o galinho alvinegro que você tem se fartado todas as noites!

Mal ouviu essas palavras, a esposa atirou-se a ele, derrubando os pratos; guinchando e vociferando, fincou-lhe as garras no peito com a fúria de uma harpia. Arcádio, cego de ódio, encheu-a de facadas. A endemoniada expirou ali mesmo, no assoalho da cozinha, em meio a atrozes convulsões.

Diante da cena do crime, coberto de sangue, veio a enlouquecer o aposentado, morrendo meses depois no Manicômio Judiciário. Quanto ao galinho, dizem que  continua por lá, o pescoço empinado, cacarejando de saudades da amada.

 

 

 

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