A grande arte

Na semana passada falamos um pouco sobre o romance policial no Brasil, especialmente da primeira tentativa que foi O Mistério. Desde então, muita gente se aventurou nesta área. Acredito que a linha de sátira teve seu ápice com o detetive Ed Mort, personagem criado por Luís Fernando Veríssimo como uma paródia das histórias de crime norte-americanas.

Mort é um detetive particular trapalhão, sempre sem dinheiro, que se mete em todo tipo de encrencas. Divide seu espaço — um escritório em Copacabana, que ele chama apenas de “escri” porque é muito pequeno — com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire. A estrutura dos contos é sempre a mesma: Ed Mort está desocupado e sem dinheiro em seu escritório, chega uma mulher e pede que ele localize seu marido. Ele o faz e, por algum motivo, a cliente não o paga.

O exagero é o principal recurso cômico de Veríssimo. Parodiando os protagonistas das narrativas noir, que são normalmente rudes e sem recursos financeiros, Ed Mort apresenta estas características multiplicadas: “…respondi, arranjando as sobrancelhas na posição “Cínico Sim Mas Você Pode Me Recuperar”; ou “Meus móveis eram escandinavos. Caixotes de bacalhau Norueguês”. Era tão desprovido de recursos financeiros que até a caneta que usava era alugada.

No que diz respeito às mulheres, Ed realiza grandes investidas, só que apenas em sua imaginação: “Convidei-a a fazer amor oriental comigo. Algo envolvendo caligrafia, arroz e as sete safadezas de Lao-tsé. Isto em pensamento, claro.”

Em 1997, Ed Mort virou filme, dirigido por Alain Fresnot, com roteiro baseado no conto “Procurando o Silva”. O detetive foi interpretado por Paulo Betti.

Além da sátira, podemos afirmar que no Brasil houve também tentativas muito bem-sucedidas de uma literatura policial séria. Vários autores como Marcos Rey, Fernando Sabino, José Louzeiro e outros escreveram narrativas policiais.

Em 2004, a Editora DBA resgatou uma coletânea do contos muito importante: A ideia de matar Belina, de Luiz Lopes Coelho, reeditado justamente por ser um elo perdido (e reencontrado pela editora) entre a tradição anglo-americana do romance policial e a moderna narrativa criminal brasileira. O detetive de Luiz Lopes Coelho, Dr. Leite, é o primeiro exemplar de uma galeria de investigadores. Os contos são realmente deliciosos e têm um sabor da belle époque paulistana, descrevendo lugares onde se reunia a elite, como o Jóquei Clube. Com o retorno do detetive Dr. Leite à cena do crime a Editora DBA fez justiça ao charmoso e bem-humorado introdutor de nosso romance criminal.

No entanto, podemos afirmar que o grande marco da literatura policial brasileira é Rubem Fonseca, que se tornou, a partir de meados dos anos 1970, um sucesso de vendas. Desde o livro de estreia — os contos de Os prisioneiros, publicados em 1963 — a temática da violência tem sido central em sua produção. Em 1975 foi publicado o Feliz Ano Novo, que foi interditado pela censura federal em 1976. A polêmica criada pela interdição propiciou uma divulgação ainda maior de sua obra.

Rubem Fonseca geralmente retrata, em estilo seco e direto, a luxúria e a violência urbana em um mundo onde marginais, assassinos, prostitutas, miseráveis e delegados se misturam. Retratar a História através da ficção é também uma marca de Rubem Fonseca, como nos romances Agosto, seu livro mais famoso, em que retratou as conspirações que resultaram no suicídio de Getúlio Vargas; e em O Selvagem da Ópera, em que retrata a vida de Carlos Gomes; ou ainda em Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, que retrata A Cavalaria Vermelha, livro de Isaac Babel.

Para protagonizar alguns de seus contos e romances, Fonseca criou um personagem antológico: o advogado Mandrake, mulherengo, cínico e imoral, além de profundo conhecedor do submundo carioca. Mandrake foi transformado em série para a rede de televisão HBO, com roteiros de José Henrique Fonseca, filho de Rubem, e o ator Marcos Palmeira no papel-título. A série foi baseada nos livros A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala.

Mandrake é um advogado do Rio de Janeiro especializado em resolver casos de chantagem e extorsão, que se envolve tanto com indivíduos da alta sociedade carioca quanto com as camadas mais baixas da sociedade. Seu trabalho é lidar com esses elementos para ajudar seus clientes.

A produção de Rubem Fonseca propiciou certa “retomada de fôlego” do gênero policial no Brasil e se tornou referência para os escritores que se seguiram. Apesar de muitas vezes classificado como autor de literatura policial, especialmente pelos contos em que usa o personagem Mandrake, apenas nos romances A grande arte e Bufo & Spallanzani ele usa as técnicas narrativas clássicas do romance policial.

A grande arte é uma história de verdades e fachadas, de colunáveis e respeitáveis corruptos de luvas brancas e de pequenos marginais de mãos ensanguentadas; de violências legalizadas e de massacres físicos. O papel do Brasil na rota internacional da cocaína é um dos dados de ação do livro. A trama básica conduz o texto, por um lado, a abordar o crime de “colarinho branco” organizado e, por outro, a tematizar uma questão que paira no horizonte da literatura policial – a do homem como possível leitor de signos e possível agente de seu destino, em contraponto ao homem enquanto paciente de um destino que lhe é ininteligível e inexorável. O romance teve uma versão fantástica para o cinema, a começar pela primeira tomada, uma aproximação dos arcos da Lapa.

Em Bufo & Spallanzani, Ivan Canabrava é um detetive da Companhia Panamericana de Seguros que está investigando o caso de um fazendeiro que morreu pouco após fazer um seguro de um milhão de dólares. Desconfiado de que a empresa onde trabalha esteja sendo vítima de uma fraude, Ivan passa a investigar a viúva e descobre, no apartamento do casal, um sapo morto e uma planta exótica. Pesquisando sobre o assunto, com a ajuda do cientista Ceresso e da jovem Minolta, Ivan passa então a se envolver cada vez mais com suas investigações, o que desagrada seu chefe.

Como podemos ver, tanto a sátira como a versão séria têm gente de peso como seus representantes, provando que o romance policial é A GRANDE ARTE.

 

 

2 comentários em “A grande arte

  • 01/11/2011 em 10:42
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    Vera.
    Gostei muito da abordagem. Sugiro a você aproveitar um dos inúmeros casos de corrupç?o no Brasil para um bom policial.

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  • 26/10/2011 em 12:33
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    Vera, como vai?

    A literatura policial brasileira tem frandes nomes tanto no passado como no presente. Há bons escritores nessa linha atualmente e muitos outros surgindo, graças as antologias policias que estão revelando novos talentos.

    beijos

    Debora

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