A Fúria

O que é isso? Como é que vão me empurrando assim?

Estava muito quieto no meu canto, sem perturbar ninguém, e agora é essa falta de respeito? Será que não me conhecem?

Costumo ser muito pacato e não procuro encrenca nunca. Todos já sabem que tenho esse gênio meio arredio e não gosto de companhia: se não me incomodam, também não procuro confusão. Já se algum mais abusado começa a se chegar, deixo bem claro que não estou satisfeito. Como sou muito grande, todos evitam confronto e me deixam em paz, mas hoje… O que é isso?

Costumo viver afastado, entretanto parece que agora resolveram me importunar.  Prefiro evitar o confronto e rapidamente me afasto. Eles me perseguem, me obrigam a mudar de rumo para evitar o embate com esse pessoal esquisito.

Ao fim da correria, me sinto encurralado e me volto contra eles gritando bem alto, avançando em sua direção. Parece que consegui amedrontá-los, pois eles se afastam, mas logo em seguida continuam a perseguição. Não tenho outra saída a não ser tentar me esconder logo após esse portão. Eles o fecham logo atrás de mim e passam para dentro, me empurrando e cutucando, até que entro num veículo que já estava lotado. Sinto-me muito incomodado, pois detesto aglomeração. Vou ficar bem calado para não chamar atenção sobre mim.

A jornada é longa e extenuante, principalmente por eu não saber o que me aguarda. Quando finalmente chegamos ao nosso destino, nos expulsam do veículo com violência. Sinto-me inseguro, pois nunca lidei com situação semelhante. Somos encaminhados para um local que já está repleto, e lá nos deixam sem comida ou bebida por muito tempo. O cansaço é tanto, que dou umas cochiladas em pé mesmo, encostado na cerca, atento a qualquer movimento ou barulho estranho.

Anoitece, e com o escuro parece que tudo piora, um barulho que vai aumentando aos poucos até que atinge um ponto em que fico totalmente atordoado. Começa nova perseguição, e no meio de tantos, parece que me escolheram de propósito.

Fazem-me entrar num cubículo onde mal dá para respirar. Minha respiração está pesada e rápida, e com o pouco espaço bato minha cabeça nas vigas de madeira que me cercam. Não sinto nenhuma dor, nada além de um nervoso muito grande, e muito, muito medo. Lá vêm eles novamente, agora parece que nada temem, pois sabem que estou imobilizado. Começam a me manipular e passam uma correia em torno de minha cintura. O medo cede lugar a outro sentimento: raiva. Com que direito?

Mesmo com pouco espaço me debato, mas não consigo me libertar. Chega mais um, com um cheiro horrível. Ele também está com medo, mas parece determinado a me subjugar, tão pequeno e tão atrevido! Vem por trás e me agarra com as pernas. Nesse instante, sinto uma dor lancinante ao mesmo tempo em que uma porta se abre; posso fugir com essa criatura pregada em minhas costas e algo que me aperta a virilha. “Fúria”, é o meu nome nesse instante. Corcoveio e chuto o ar para todos os lados, mas o infeliz não se desprega e ainda me dá uns chutes nos ombros a cada vez que sobe e desce.

Nossa dança é macabra. Para mim, parece triste de se ver, mas parece que os companheiros da infeliz criatura que tenho em cima estão muito satisfeitos, pois gritam ininterruptamente. A cada corcoveio sinto que estou ganhando espaço, e, finalmente, jogo longe meu adversário e vou ao seu encalço.

Agora que estou livre, ele me paga! Muitos outros entram na arena e me distraem com suas roupas coloridas. Não sei a quem vou atacar. Meu contendor está estirado no solo, em uma posição esquisita, Quero atacá-lo, vou enterrar meus chifres fundo em seu peito,  mas sou atrapalhado por esses palhaços que me desviam a atenção. Estou furioso, bato minhas patas no chão. Retiro-me, sendo escoltado. A vergonha é tudo o que me resta.

Alguns touros acabam morrendo nos rodeios devido ao estresse. No pasto, são criaturas magníficas.

 

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “A Fúria

  • 27/11/2011 em 11:11
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    Priscila é muito triste o que fazem com animais. Porém, o que dizer de tantos seres humanos que infelizmente, fazem o mesmo com crianças e velhos indefesos? Só me resta ficar revoltada com tamanha agressividade, Bjs e sucesso: Belzinha

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