A foto

por Maria Anna Machado

 

Pintura digital por Maria Anna Machado

Minha neta colocou uma foto hoje no Facebook, e, horrorizada, comentou a falta de “humanidade” dos engenheiros responsáveis pelo ato mostrado. Então, resolvi escrever alguma coisa, não que ache o ato bonito ou coisa parecida, quis apenas contar como eram as coisas “em outros tempos”.

A pobreza era geral, pelo menos na nossa vizinhança. Carne “vermelha” era só uma vez ao mês, no dia do pagamento. Minha mãe criava no fundo do quintal as galinhas das quais a gente cuidava desde que eram pintinhos, e as chamava de Carijó, Patativa, Piriquita; os galos eram Zé ou Garnizé. Aos domingos, minha mãe e eu, juntas — eu era a maiorzinha — íamos ao galinheiro buscar a mais arredia, a que não botava muitos ovos, enfim, a que estava destinada.

Às vezes, eu chorava de pena, mas a fome e a necessidade de proteínas falavam mais alto. Minha mãe pegava a escolhida e amarrava as pernas com um cabo de vassoura entre elas; colocava uma ponta do cabo na beirada do poço, a outra debaixo do braço e, com a mão direita, pegava a cabeça da galinha entre os dedos indicador e o pai de todos e puxava o pescoço .

Quando ficou mais velha e não tinha muita força, às vezes o pescoço não quebrava totalmente e a galinha, ao ser colocada ao chão, saia pulando com a cabeça dependurada, triste cena, essa sim. Outras vezes, sem a força necessária, mamãe colocava a cabeça na madeira do poço e com uma faca afiada cortava o pescoço. O sangue jorrava longe, às vezes salpicava a nossa roupa.

A comida era sempre arroz, feijão e ovo. Eu não gostava de feijão; colocava o arroz na frigideira e punha fubá, torrava, colocava o ovo e mexia bastante. Então, a galinha no domingo era uma festa, e a cena dramática desaparecia diante do prato fumegante e cheiroso.

Minha mãe sempre ficava com os pés e o pescoço e pra mim eram as asas, porque o peito e as coxas eram para os homens que trabalhavam. Até hoje, eu só como asa…

Minha mãe, por ser filha de italianos, fazia muita polenta, que eu comia até com café. Verdura, só a couve que dava no fundo do quintal. Em São Paulo só havia plantação de café, e a laranja que chegava da Bahia na venda da esquina era uma atração para todas as crianças. Íamos “ajudar” a separar as que apodreciam durante a longa viagem e junto sempre vinha alguma melhorzinha, que depois pegávamos na valeta onde eram jogadas.

Doces?! Na mesma venda, uma vez por semana, uma carroça vinha trocar os doces velhos pelos mais novos e, então, com os níqueis guardados, a gente comprava os velhos e se lambuzava. Quando meus dois irmãos mais velhos começaram a trabalhar, havia carne todos os domingos e às vezes nas quintas-feiras, mas a galinha continuou sendo a “nossa vitamina”.

O que mais me dói é que sei que ainda existe neste mundão gente que ainda passa por essas necessidades, e mesmo com as técnicas modernas por aí, fazem igual à minha querida mãe. Mas a minha querida neta e outras meninas não sabem dessas coisas, nós temos que contar para que deem valor aos métodos modernos, embora contenham doses fortes.

As vitaminas e as comidas “orgânicas” ainda não estão ao alcance de todos. Torço para que isso aconteça, mas não posso deixar de lembrar… pena não ter aqui uma foto daquilo que lhes contei…

 

 

Maria Anna Machado é pintora por nascimento e escritora por adoção. Suas pinturas são sua alma, seus escritos seu coração. Completou oitenta anos e se voltasse a nascer não mudaria um minuto sequer, pois todos foram vividos com intensidade, serenidade e amor. Atlants — atol das formigas é seu primeiro romance publicado.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “A foto

  • 03/04/2012 em 09:18
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    No interior (Extremo Sul da Bahia), tinha uma família que por coincidência ou não, passou por um prolema parecido, é claro que a minha mãe com um coração muito generoso se dispunha a ajudar àquela família necessitada de tudo. Não era resto que a mamãe lhes dava: frutas do quintal, ovos, farinha, verduras que vinham da fazenda ela dava um pouco de cada, papai não se incomodava muito, mas, dizia que o trabalho é necessário para o créscimento pessoal e ao invés de dar o alimento, chamava para trabalhar é claro, e receber uma remuneração pelo serviço.
    Eu observava tudo, achava lindo aquele ato generoso da mamãe e certa vez perguntei-lhe. Porque papai não admitia que ela fizesse a caridade? – Filha o próposito de seu pai não é negar é incentivar. E disse-me mais, seu pai trabalha para dar uma educação para os (5) filhos, forma-los e ele se sentir aliviado, porque conseguira alcançar sua meta. Mas aí falei, papai é coletor pode pagar os melhores colégios e eles os vizinhos? pois é eles farão o mesmo se não for para formar mas ao menos para não passarem fome. Mesmo assim fiquei intrigada, afinal não houve nenhuma maldade mas a esperança de ver aquela família superar suas diciculdades. Tomara que eles tenham conseguido seus objetivos. Porque depois de todos formados e independentes agora estamos colhendo o fruto que nossos amáveis pais deixaram. A família mudou-se para o interior menor que o nosso e foi agradecer à mamãe e papai pela ajuda. Com certeza a vida do casal e seus (6) filhos deve ter mudado bastante e para melhor. Creio eu.

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