A fórmula do amor (para adultos)

Weib. Ich bin der Fleisch der stets bejaht  [Mulher. Eu sou a carne que sempre afirma].

James Joyce, citando Goethe em carta a Frank Budgen, sobre “Penelope”, último episódio de Ulysses

Para Marcela.

 

A paixão entre os dois sexos segundo Lacan. As setas representam as pernas abertas da mulher. “a” é o “objeto”. A outra seta, hum… o resto… não sei.

E eu que pensei que já tinha visto tudo… não?

Deixa eu repetir. Como vocês sabem, desde criança me confessei uma traumatizadinha, filha de pai e mãe, um homem e uma mulher, pasmem, casados (um com o outro), caretinha… Criada em Minas, vamos combinar, a pão-de-ló, bolo de fubá e café quentinho. Beijinho? Bem. De boa-noite, rapidinho. Mas beijo e abraço de verdade, como Alan gosta de me cobrar… só uma vez por ano, no Yom Kipur. Conviva-se com um homem moralista desses, não Alan, claro que não. Papai.

Todo esse amor banal e fidelidade conjugal (pelo menos é no que acredito, gosto de acreditar) resultou, sei lá por que, numa mulher adulta e sexualidade infantil, que eu, claro, por muitos anos e longa(s) terapia(s) atribuí a mamãe, como não poderia deixar de ser. Afinal de contas, foi ela a bruxa prendada que um dia me disse, naquele belo, auspicioso dia em que perdi minha virgindade a duras estocadas no banco de trás de um VW, com “Michel blue eyes”, ainda me lembro como se fosse hoje: “Para que fazer algo que não vai praticar no futuro?”

“???!!!??”

Coisinha simples, como vocês podem ver. E naquele futuro fiquei, enganchada, em cima de um muro do qual tinha medo de descer, ou de cair se tentasse me mexer, sei lá. Papai, como todos sabem, fez, aconteceu e se escafedeu. Não, não nos abandonou como reza a cartilha dos explícitos traumatizados do sexo: morreu cedo demais. Fazer o quê. Não ficou aqui pra me ver ser e acontecer, o que, aliás, ainda está para acontecer. Nossa mãe.

O fato é que, depois de tantos divãs furados, fui resolver meu problema com sexo online, coisa que muita gente ainda custa a entender. Msg vai, msg vem, fui relaxando aquela tensão que não tinha como se perder, aumentando o tesão e pagando pra ver. Quando paguei, entendi finalmente o que tinha que fazer. Gozei.

A questão é que o segredo do gozo, que eu descobri e nunca publiquei (ou se  já publiquei, esqueci), é, justamente, esquecer. Não fazer nada, e mais importante, deixando de lado tudo o mais que é tudo irrelevante demais: esquecer de tudo que um dia a gente tentou fazer, bem, pelo menos pra mim foi assim. Afinal de contas, trepar e gozar é só começar, bem, assim é que deveria ser.

Mas não é. Hoje em dia uma mulher vai pra cama e leva consigo um caminhão de referências, leituras e premências, fica tão tensa que nem seu parceiro ela consegue ver, e ainda por cima pensa em fotografar pra divulgar mais tarde o gozo que acabou de não ter. Bem, eu, pelo menos, fico imaginando que é o que todos vão fazer, porque, cá pra nós, já deixei tudo isso para trás, ah, vocês pensaram que era de sexo que eu estava falando, não é mesmo?

O caso é que, como já escrevi milhões de vezes, depois que encontrei o “amor da minha vida”, com o qual compartilho as angústias e as perdas e as brigas de nossa excitante batida, me esqueci de tudo que havia para eu me esquecer, nem sei explicar como isso foi me acontecer: de que não amava, de que não era amada, de que pouco trepava e quando trepava não gozava… de que era gordinha e mal-ajambrada… tudo isso ficou num passado tão distante que se eu ainda acreditasse na existência de outras vidas diria que… Mas tampouco nisso eu agora acredito. Difícil, eu sei. Como viver uma vida que é, no dia-a-dia, simplesmente, uma vida normal para se viver? Confesso que ainda não sei. Oito anos semana que vem e ainda estou perplexa com o que encontrei, mas, peraí, não era sobre isso que eu queria escrever, não, gente, de jeito nenhum.

O negócio é que enquanto há olhos que mais tarde a terra há de comer, sempre há algo de novo para se ver, ainda que o vulgo acredite que “nada há de novo sobre a terra”, mas se a gente for fundo… bem, não há limite para o que o ser humano pode conceber, e esta semana me deparei com algo que, finalmente, conseguiu me surpreender: a “fórmula do gozo”, e não estou sendo metafórica, nem simbólica, nem passando receita de bolo que ninguém consegue fazer (e que, se não crescer, sola, como tantas pilotas de fogão terão tido oportunidade de aprender, nossa, no tempo de mamãe era bem mais fácil viver). Afinal de contas, bolo hoje em dia se compra pronto na padaria, né?

Não, mesmo. Estou sendo literária, e vocês aí podem se preparar para nada entender. Eu já sabia que Lacan existia, mas não fazia ideia do que ele poderia me oferecer além dos lógicos 15 minutos, taí: a mim, mulher que se atreveu a existir contra todas as evidências em contrário, La Cunt que vai se (deixar) comer: a fórmula do sexo onde o amor é um x a + no cálculo do ganho conjugal, ou alguém acredita mesmo que a matemática fala ao mais íntimo de um casal?

Ele mesmo (JL, 1901:1981), leitor atento do âmago feminino — e vejam vocês, mais francês do que  jamais ousou ser, com seu numerô sank e pérolas pra todo mundo querer —, imaginem, nada mais que um buraco, negro de se ver, como quem se arriscar vai poder ler, Albert x Jacques disputando a complexidade de viver, se é que vocês me entendem: em sua mais apoética tradução. O amor não nasceu para todos. Muito menos Lacan. “Lacan’t”, Alan lá de dentro arrematou, e sofra-se com um limite de linguagem desses.

Um bom domingo. E queira Deus, se ele existir, que estas fórmulas loucas  apareçam todas online procês. É de estarrecer.

 

 

4 comentários em “A fórmula do amor (para adultos)

  • 28/10/2012 em 18:20
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    Os primatas são os mamíferos que compõe a ordem Primates, onde estão incluídos os micos, macacos, gorilas, chimpanzés, orangotangos, lêmures, os babuínos, os seres humanos e outros hominídeos. Ambos os sexos são altamente hierarquizados e com uma organização social bastante complexa – multi-macho/multi-fêmea, seres sensoriais. Segundo Lin Yu Tan, a origem dos problemas nas sociedades ocidentais e querer fazer dos homens Deuses, impondo características (Virtudes) que nunca teremos.Vamos aceitar de uma vez nossa natureza. “Primata”.

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    • 28/10/2012 em 20:14
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      Manuel, eu acho importante ressaltar que embora eu faça brincadeira, não acho que somos primatas, acho que somos seres ultra sofisticados, e acho maravilhoso que alguém tenha a capacidade que Lacan teve de criar todo um novo corpo de conhecimento que antes dele ninguém vislumbrava. Obviamente é um conhecimento para especialistas, não é para o uso normal de qualquer um de nós. Pra isso a gente paga um analista, e tem, claro, a opção de escolher (ui!) um de uma escola com a qual concordamos. Hoje eu quero distância de análise, mas isso, provavelmente porque já dissequei a minha mente obsessivamente por mais de 20 anos.

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      • 28/10/2012 em 20:46
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        Não se pode negar um fato cientifico, nosso DNA nos coloca com 100% de certeza na posição certa na taxonomia que nos corresponde. Por outro lado “Stricto Sensu” psicologia não é uma ciência, da mesma forma que sociologia, politica e similares, mas estariam num estágio empírico pré-científico. Estas questões são pontos pacíficos.

        A psicologia frequentemente não cumpre os cinco requisitos básicos para que uma área seja considerada rigorosa cientificamente “Stricto Sensu”: terminologia claramente definida, quantificabilidade, condições experimentais altamente controladas, reprodutibilidade e, finalmente, previsibilidade e testabilidade”.

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