A forma da água

Na semana passada, falei de Manuel Vázquez Montalbán e seu detetive Pepe Carvalho. É justo falar hoje do italiano Andrea Camilleri, que criou o comissário Montalbano, Salvo Montalbano, em sua homenagem.

Andrea Camilleri nasceu em Porto Empedocle, Agrigento, em setembro de 1925. Iniciou sua vida como roteirista e diretor de teatro e televisão, produzindo os famosos seriados policiais do comissário Maigret e do tenente Sheridan. A partir dos anos 1980, passou a se dedicar à narrativa. Depois de escrever romances históricos, enveredou pelos caminhos da literatura policial: a consagração chegou apenas no início dos anos 1990, quando publicou A forma da água, primeiro caso do comissário Salvo Montalbano.

Criado, como eu disse, em homenagem ao escritor Montalbán, Montalbano tem em comum com ele o gosto pela gastronomia, mas está mais próximo de Maigret, de Simenon, de quem Camilleri era leitor desde a juventude e de quem se tornou grande conhecedor, através dos roteiros para séries de TV.

Nos casos de Montalbano, a cidade natal de Camilleri surge transfigurada como a cidade de Vigàta, na província de Montelusa, na Sicília. O local é magnificamente caracterizado pelo autor: o espírito siciliano, a comida, as paisagens, o humor, os tipos, tudo está presente nas histórias de forma ágil, divertida, e ao mesmo tempo sensível. Como Maigret, Montalbano aprecia a comida e tem seus locais e pratos preferidos, sempre explicando o modo de prepará-los. Vive sozinho, e tem uma mulher que vai arrumar sua casa e também prepara pratos excelentes. Todos com receitas!

Por trás de cada trama que se desenvolve na cidade fictícia, uma comunidade pobre do sul da Itália, o autor retrata com sensibilidade a realidade social que divide brutalmente a Itália meridional do resto do país. Em Vigàta a máfia está sempre subentendida, e a teia de corrupção, de compadrio político e intrigas compõe um painel de fácil compreensão para o leitor brasileiro, ao mesmo tempo em que nos serve de consolo, já que demonstra que certas mazelas não ocorrem apenas ao sul do Equador.

Salvo Montalbano tem um pai distante e uma noiva que trabalha e vive em outra cidade, e vem visitá-lo de vez em quando. Seus companheiros da polícia têm por ele respeito e amizade. Ele não é perfeito, precisa vigiar o peso, mas é apaixonado pela boa mesa. Vive próximo à praia e gosta de nadar e andar na areia. Raciocina melhor sobre seus casos quando, à noite, se deixa levar pelo calmo mar da Sicília.

Em uma de suas entrevistas, Camilleri fala de suas influências e confessa que, ao falar de Vigàta, fala da Sicília como um todo — como Tolstoi, que dizia que quem descrevesse bem sua vila estaria descrevendo o mundo. O autor afirma também que busca fazer um trabalho com a linguagem, misturando o italiano e certas expressões do dialeto siciliano, pois chegou à conclusão de que se escrevesse somente em italiano clássico não atingiria todos os objetivos.

Aqui no Brasil, a editora Record publicou diversos de seus romances policiais na série especial “Noir Europeu”. Sou suspeita para falar, pois gosto de romances policiais e gosto muito da Itália. O comissário Montalbano é um italiano típico, e a Itália por onde ele circula é descrita com uma veracidade incrível, o que nos mostra, que como a água, que  adquire a forma do recipiente onde a colocamos, também a fórmula policial se adapta a bons escritores! Vale a pena conferir.

A editora Record vem publicando todas as aventuras de Montalbano. Depois de A forma da água vieram O cão de terracota, O ladrão de merendas, A voz do violino, Excursão a Tíndari e A lua de papel, além de alguns livros de contos com pequenas aventuras que são deliciosas de se ler.

Até a próxima!

 

 

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