A filha pródiga

A linda casa da minha infância na Rua Sinval de Sá era bem mais linda, vamos combinar, sem esse muro horroroso aí. Vou levar o Alan lá.

para a Ethelzinha

 

Tudo bem. Não posso dizer exatamente que minha alma canta, à medida que me aproximo de Belo Horizonte, no meu Gol preto, pela antiga BR-3 da minha infância onde tanta gente já correu e morreu. Mas cantando ou não, é o que estarei fazendo, com uma mistura caótica de sensações, daqui a exatamente duas semanas, quando volto à minha “terra natal” para uma aparição triunfal — pelo menos é o que esperamos todos — na Farra do POD da KBR.

Deixem eu começar explicando as “aspas”, não é mesmo? Embora me considere mineira e hoje em dia assim me declare por tradição e cacos literários, não nasci em Belo Horizonte como todo mundo sabe, mas em Tibérias, Israel — tem gente que até hoje pensa que sou estrangeira, embora me tenha sido facultado pela Constituição Brasileira o direito inalienável de opção de nacionalidade nata, sabem como é.

O caso é que cheguei à querida (ou malfadada, sei lá) Beagá com um ano e três meses de idade, vinda de Israel e ainda sem falar nem andar, e lá cresci com menos de um pé na mineiridade, isto é, sempre querendo dar o fora de lá.

Vai entender. De minha infância, nada tenho a reclamar — pai, mãe e avô sempre empenhados em me agradar, desde que fossem podados pela raiz os meus excessos emocionais, claro, para não os chatear — a não ser quem sabe um ou outro amor rejeitado, é, gente, fui romântica assim incurável já desde criancinha, vocês podem muito bem imaginar.

Se quisesse eu poderia contar minha história em Minas através dos quase-namorados, quase todos via de regra rejeitados por mamãe e muitos deles paulistas, mas aí já seria outra história, não é mesmo? Uma que já cansei de contar, e agora, podem acreditar, está para baixar de graça no Torrent , à minha revelia, claro (e espero que com muitos vírus), que escritor em seu juízo perfeito, a não ser o famigerado milionário Paulo Coelho, permitiria isso?

Ou através dos ataques que sofri, pelo menos na mente, por parte da TFMJ (tradicional família mineira e judaica, uma mistura inapagável), como aquele meu primo mais velho dizendo que eu ia ficar “falada”, só porque ia namorar naquela lanchonete de beira-de-estrada. Fala sério. Como será que ele lidaria com meus casamentos pela internet?

Papai, felizmente, por ter morrido tão cedo, escapou pelo menos dessa dor, não a de ter a filha apaixonada do lado oculto de uma tela de computador, mas a de tê-la emaranhada nas frustrações da vida de escritor, como diz a velha piada, o que se ganha com isso nem dá para o papel higiênico da moçada, né, gente? “Cagona”, eu.

Ops. Paraí. Eu não pretendia ser tão dramática assim, juro, mas daí são as tais tantas emoções, misturadas a caminho da cidade que me configurou. Fazer o quê.

Eu poderia dizer, aliás, que minha vida de menina, digo, em Minas, se divide em antes e depois de papai, isso, porque, tendo papai partido tão precocemente desta vida, todos decidimos nos mudar para o Rio de Janeiro — embora eu tenha dado o amaldiçoado primeiro passo pouco antes de ele morrer, e por isso me culpo a vida inteira, mas deixa isso pra lá, pra depois da Farra, onde haverá uma natural reunião terapêutica pela quantidade de excepcionais psicoterapeutas presentes, com seus magníficos livros publicados pela KBR. Oba. Tudo a ver com a minha regressão, digo, regresso às montanhas de minha Minas de onde emigrei aos 20 anos… Mas estaria mentindo. Francamente.

Embora tenha pisado em Belo Horizonte pela última vez, deixa eu ver, não para o enterro de vovó em 1990, aos noventa, mas para um aniversário redondo de nossa formatura no Colégio Estadual de Minas Gerais — hum, quando estava ainda num “caso enrolado” com meu namorado gay de 10 anos, credo, o que significa que o fato ocorreu há pelo menos vinte, bem antes de meus dois casamentos pela internet (num tô falando que minha história com Minas poderia ser contada através de relacionamentos frustrados… e vou mais além, pela moral mineira virginalmente responsabilizados?), nossa, o tempo passa, ufa, travessão e parênteses na mesma interrupção é foda, desculpem —, o que reflete realmente a realidade é que meu relacionamento com a cidade se divide em antes e depois do Facebook, e por que não dizer, da criação da KBR, lá vem de novo explicação.

Do Facebook fica bem claro o porquê: como todo mundo, passo minhas mínimas horas vagas procurando na rede os meus amigos de infância para ver se estão fodidos, mais envelhecidos do que eu, et voilá. Mas o negócio da KBR com Minas é bem mais interessante, lucrativo e instigante, pois foi através dele que se instalou uma dessas passagens irônicas que ocorrem em todas as vidas: uma autora mineira me procurou na KBR e imaginem que a irmã dela tinha sido casada com meu primo, não aquele que me disse que eu ficaria falada, claro, mas  Ruben, que era meu primo favorito, mundo pequeno, não é mesmo?

Vai daí que essa escritora — de quem eu deveria dizer o nome, e digo, pronto, Ethel Kacowicz —, que era dublê de publicitária e uma figura muito “badalada” — vamos combinar que bastaria esse “badalada” aí para tornar esta crônica datada —, abriu caminho para que Minas se tornasse um celeiro de gente boa publicada. Publicada pela KBR, claro. E o resultado disso é não só a presente Farra desbragada e regada a cachaça, mas também a volta por cima à terra nem sempre tão adorada. De lá pra cá, só o que fiz foi deixar que os tiques de mineira invadissem a minha crônica viciada: de Ruben em Rubem fui trilhando a minha estrada, e aqui estou. Estarei, digo, em BH (deste agosto não passa), de onde espero sair positivamente transformada, ah, tudo bem, meu grande problema sempre foi esperar demais de cada parada.

Alô, amigos e amigas de infância, tios e tias, primos (não tenho nenhuma prima por parte de minha mãe mineira), colegas do Estadual, namorados abortados, madrichim e chanichim [do hebraico, lideranças e liderados, mais ou menos isso] e, acima de tudo e de todos, escritores mineiros da KBR, todos geniais como eu: podem ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto, além das brahmas geladas, claro. Eu tô voltando.

E um bom domingo procês.

 

 

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