A família é a morte do artista

Hanif Kureishi, autor, entre outros, de “No colo do pai”, pela Companhia das Letras: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11993

Em um dos livros de Hanif Kureishi há uma passagem excelente, não, não vou nomear o livro da Companhia das Letras, com uma chocante capa interna verde-limão, linda edição, porque não lembro o nome, claro, eu poderia ir ao Google, ao catálogo da editora, mas não quero, Alan vive fazendo pouco porque fui educada memorizando nomes, de artistas, diretores, sabendo reconhecer qual música ou tela é de qual compositor ou pintor em concertos e museus pelo mundo, eu mesma um microcomputador com overdose de dados, fazer o quê, mas isso porque ele mesmo não lembra nada nunca, enfim, Kureishi, num livro de memórias sem ficção, declarou que no começo de sua carreira sempre sentia que ao escrever estaria ferindo alguém.

A invenção é um bálsamo para isso, ou não, visto que como se viu também a ficção para ter peso e consistência se apoia com frequência na vida real, e se algum leitor decidir investigar a vida do autor lá provavelmente encontrará, no fundo ou não, toques cruciais da composição.

Ser artista é ser hiper-sensível, tá bom, mas há grande chance de que grandes dores tão sentidas e cruelmente vividas não passam de um beliscão, mas quem entre nós é capaz de discernir isso? Sei a dor que trago no meu coração — tem gente que abomina a palavra “coração” em literatura, eu entendo, a dor que há lá é uma dor que mata, não um mero símbolo que fere o cérebro sem consistência material — e gostaria de poder fazê-la sumir, mas não estou mais aqui pra fazer o que não quero, jogar o jogo do contente como mamãe me ensinou e muito menos para afogar algo que vive em mim para que alguma outra pessoa seja protegida do mal que vem de mim, tá certo, já sabemos todos que sou uma cadela insensível, egocêntrica, uma terrível medusa egoísta sem filhos nem pai nem mãe. Então estamos combinados assim.

Também eu no curso da escrita e fora dela já me senti ferindo o outro, vários outros, querendo ou não, mas acho hoje em dia que cada um tem a obrigação de se proteger, não saber o que não quer, mesmo por não haver duas visões neste mundo que tenham plena capacidade de se entender.

Venho de uma família normal. Não há viciados, nem assassinos, nem corruptos nem ladrões, apenas um grau moderado de loucura da qual um sintoma é a falta de jogo de cintura. Me acostumei, à falta do toque, inclusive. Posso viver sem isso se for preciso, embora não goste.

Minha avó materna, por exemplo, tem entre seus parentes até um santo reconhecido, com túmulo de santo na Terra Santa e tudo, quem sabe eu deveria rezar para ele interceder por mim? Infelizmente não acredito nesse tipo de proteção, nem na bondade divina e, por consequência, muito menos em seu contraponto mais fiel, a maldade humana, há bom e mal, verdadeiro e falso, ingênuo e malicioso como há noite e há dia, na mesma mente e período de um dia, somos tantos e tão vários quanto os grãos de areia de algum deserto por aí, e um deus nas alturas nada tem a ver com isso.

Reconheçamos: aqui se faz e aqui se paga porque só o aqui existe, e o que se faz e nos marca fica indelével a exigir sua paga até que quitemos a conta mental, entenderam? Ou paguemos o custo de mantê-la em aberto sem parar jamais de pensar, porque ser humano é ser isso, uma máquina de racionalizar, quem não quiser que se iluda com algo maior do que nós, mas voltando à minha avó, tinha lá suas esquisitices e não é pra menos, tirada aos 18 de seu país e enviada a uma terra estrangeira para não sucumbir, para se casar com um primo que nunca vira antes, e que embora fosse por seu lado um homem de muitos predicados fez o que pôde para mantê-la à parte, “em seu lugar de mulher”, não aprendeu a ler nem escrever e vivia num mundo que lhe era hostil, vocês queriam o quê?

Pois é, para mim foi sempre uma avó normal, não uma doce avozinha, mas normal, cozinhava aos domingos etc. e tal, mas para um de seus sobrinhos uma megera terrível, que o torturou sobremaneira com sua sovinice e seus pisos encerados cujo brilho era de certa forma ofensivo, vai entender, e esse sobrinho a descreveu num livro exatamente como a via, uma megera horrível com seus pisos encerados que o ofendiam ainda na velhice, me magoei, achei que tinha direito a um ressarcimento, doce lembrança de uma avozinha doce, um pedido de desculpas que nunca veio e agora esse primo já faleceu. Kaput. Kapará.

A gente vai ficando velha e as pessoas que a gente odeia vão deixando de existir, a não ser que a gente se mantenha angariando inimigos, coisa que só faço hoje em dia muito contra a minha vontade e se a outra pessoa fizer absoluta questão. Agora, por exemplo, embora me reste pouca gente a quem queira detestar, estou num momento muito Conan Doyle de ser, parece que o Dr. Watson vai ter que se escafeder porque na verdade a sherloque de mim sou eu, e para ceder a este impulso teria que me atirar, a mim, cachoeira abaixo, e pouca gente, acredito, iria protestar, serei morta e reposta em menos que o tempo que levei para escrever isso, nisso é que dá ser personagem e autor ao mesmo tempo, uma dureza, embora muita gente acredite que é uma prática automática, autoindulgente e desinteressante. Aconselho tentar.

A vida do cronista é (se) observar, e dessa barafunda de autorreferências se autoficcionar e a todos que com ele convivem. Mas em certas ocasiões é preciso se cuidar, como essa minha amiga, por exemplo — um grande macete, já vou adiantar, é inverter sexo e idade do personagem abordado — então, a filha da minha amiga está para se casar, só pensa em vestidos, bons-bocados, flores e outros babados, mas a minha amiga, por outro lado, embora alegrando-se pela filha em momento a isso dedicado, tem passado por péssimas e deprimentes exigências do padrasto da noiva, um sujeito conturbado, inteligente e incrivelmente autocentrado com rompantes de drogado durante os quais, zumbi voluntário de si, não vê a própria palma diante de seu nariz; a mulher já não suporta o vaivém de emoções a que a submete o torturador em nome de um amor, não sei qual, sexual, talvez, mas não posso garantir, o certo é que para cada momento de elixir são vários de veneno mortal, o que deveria fazer a minha amiga? Toldar a alegria da filha provando que o amor é na verdade uma falácia reprodutiva?

Não dá. Não é. Tudo depende novamente de um mero ponto de partida, porque a chegada depende sempre de com que caminho a gente lida, e isso não dá pra se saber, a vida é vivida só quando se vive a vida e não há escapatória para isso.

Resta explicar a morte do artista, este suicida nato que opta desde o berço por uma frustração falida. A frase não é minha, mas de um amigo que não resistiu às pressões de uma amizade maldita, muito talentoso, um verdadeiro artista. Em certa altura da vida deparou-se com um projeto único, radical, profundo e sensacional, natimorto como vários outros no panteon imortal e que, de acordo com meu ponto de vista — olha ele aí — o faria mudar de vida, ou de patamar criativo, pelo menos. Mas não teve forças para tocá-lo, para não magoar o pai ainda vivo, que, por sinal, ele detestava. Alguns anos depois, tendo a questão do pai sido transcendida, o problema passou a ser o filho, que já entendedor ficaria constrangido.

Enfim, não é a família a morte do artista, mas o mundo e suas ameaças insensitivas, e como sobreviver num ambiente inamistoso desses? O artista, e o escritor incluído, não é um cachorro, uma besta, um monstro egoísta, mas um solitário autoimpingido dedicado à sua causa prioritariamente, mesmo que sua causa seja a falta de toda e qualquer causa, o que o faz se sentir sempre meio demente, pois errado ou certo precisa se situar acima e ao largo de todas as verdades humanas para dar o seu recado, mais humano ainda, über-humano, que não vem dos céus nem das profundezas, mas de dentro dele mesmo. A morte do artista é ele mesmo, e estou doente de mim.

E pra vocês um bom domingo.

 

 

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