A Esperança

Um dia desses eu estava colada no Facebook e dei de cara com um vídeo de “Cajuína”, uma música que adoro do Caetano Veloso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse a tal cajuína.

Tratava-se de uma parte do programa “Altas horas”, comandado pelo Sergio Groissman. Ele estava entrevistando uma menina, que tinha duas perguntas a fazer para o Caetano, justamente sobre o que era a tal cajuína e qual era história de música, porque ela não tinha entendido bem.

Nem eu. Sempre adorei a música, mas nunca soube uma coisa nem outra. Fiquei atenta. Ele começou contando que seu amigo Torquato Neto, que era seu parceiro na Tropicália, tinha morrido em 1972. Suicidou-se. Na época, não estavam muito próximos. Disse que tinha conhecido o pai dele (do Torquato, que era de Teresina). Falou que tinha ido a Teresina algumas vezes; e que numa dessas encontrou o pai. Quase não falaram nada, o pai o convidou à sua casa para servir-lhe uma cajuína — aí eu descobri: é um suco de caju sem álcool — e Caetano começou a chorar muito, até convulsivamente, e ele, o pai, o consolava, ele  comentou que que parece que os pais eram espíritas.

Num momento o pai o deixou sozinho na sala, só ele e a cajuína, e trouxe uma rosa-menina para ele, dum pé de rosa-menina que tinha no jardim. E por isso ele fez essa música.

Aí veio um papo furado para descontrair, no que houve êxito. No meio do papo furado, subitamente, ele começa a cantar a música, assim, sem avisar, sem apresentação, deslizando na conversa normalmente.

É uma letra muito curta, e eu me autorizo a repeti-la aqui:

 

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina.

 

E por que conto essa história linda?

Porque no último dia 19 de outubro, uma sexta-feira, recebi um telefonema dizendo que uma das minhas amigas mais próximas, mais íntimas, havia falecido.

Olha, é um soco bem na boca do estômago. Chorei. Chorei. E não sou de chorar.

Tomei um baque forte no meio do meu peito. Depois comecei a chorar também. Aí, lembrei: “Existirmos, a que será que se destina…”

A que será que se destina… E alguém me perguntou como foi e tal, me lembrei, a parte da história dela que eu sabia. É claro, depois de onze anos de conversas diárias, travessuras e mais travessuras, gargalhadas de rolar, segredos sombrios compartilhados, vergonhas… abraços, consolo e todo o desenrolar de uma vida que, de repente, vi que se parecia com todas as outras que eu tinha ouvido contar por aí tantas vezes… parecia tudo a mesma história, até quando a morte punha um ponto final nela. E deixa dor, depois saudade, e depois volta o amor e ocupa o seu lugar no coração de quem fica na estação, vendo o trem partir. Por instantes, parece que o mundo se calou. E agora? Como viver?

Bem, pelo menos ainda não foi a nossa vez. E com dor ou sem, damos um passo, outro, surgem ideias… Ué, de onde veio esse impulso? Da Esperança, que não para, que não passa; que “dança na corda bamba de sombrinha/…  a esperança equilibrista/ sabe que o show de todo artista tem que continuar!” (João Bosco).

Bom fim de semana!

 

 

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12 Resultados

  1. Lucia disse:

    Rosângela, minha querida, você sabe – como ninguém – acolher quem sofre,quem cria,quem indaga “existirmos – a que será que se destina?” Você é uma ARTISTA – algo maior do que pitonisa, papisa, psicanalista…

  2. Rosângela.
    Parte de sua amiga partiu, mas muito dela ficou em você. Seu texto foi de muita emoção. Coragem e parabéns pelo texto.

  3. Até as estrelas partem, Rosangela, mas continuam brilhando. Somos eternos, apenas mudamos de morada. A saudade, sim, essa fica conosco e, acredito, com quem parte também. A vida continua, aqui e lá, mas o triste da morte é a ausência do abraço, a impossibilidade do cuidar fisicamente e tocar quem partiu. A alma do poeta Caetano, da Rosangela, expressam através da arte o sentimento. Existe melhor forma de lidar com a saudade?Excelente crônica, como sempre. Beijos de estrela.

  4. jurema fernandes disse:

    Um texto delicioso!

  5. Oi Raul! Obrigada e beijo!

  6. Raul Augusto disse:

    Oi, Rosângela!
    Gostei!
    Você conseguiu, e adorei o final…
    Parabéns!
    Abraço,
    Raul Augusto

  7. manuelfunes disse:

    “Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.”
    (Johann Goethe)

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