A escolha

Há muitos anos, desde quando me dei conta, quando visitava fazendas, ou andando nas ruas de cidades grandes ou pequenas, enfim, vivendo neste mundo que a nossa civilização construiu, me incomodo com os maus tratos a que os animais, seja para diversão ou refeição, vamos chamar assim, são submetidos. É claro que eu, você e todos nós já presenciamos muita crueldade nua, crua e repetida.

Na minha mente, tomada de náusea ao ficar sabendo de qualquer crueldade, a primeira coisa que pensei foi: vou deixar de comer carne. Todos sabemos também por onde se perdem essas discussões: vegetarianismo, dieta lacto-ovo-vegetariana, macrobiótica e múltiplas outras. Para resumir, nada parece funcionar como uma boa alimentação sem que animais sejam mal tratados.

E eis aí a diferença: eles são cruelmente assassinados, e não sacrificados. Eu presto atenção nas palavras. E foi assim que ouvi certa vez um amigo comentar o significado da palavra sacrifício. Não é nenhum mistério ou segredo. Sua origem etimológica é sacr, de origem provavelmente judaica e depois latinizada para sacrare) e a palavra latina ofício). No dicionário etimológico da língua portuguesa – já me disseram ser o único existente – sacrificar significa oferecer em holocausto por meio de cerimônias próprias.

Numa consulta rápida à wikipedia, vem primeiro um resumo: Sacrifício é a prática de oferecer a vida de animais, humanos, colheitas e plantações, como alimento aos deuses; como ato de propiciação ou culto. O termo é usado também metaforicamente para descrever atos de altruísmo, abnegação e renúncia em favor de outrem.

Não vou moer vossa paciência com a legitimidade do que é sagrado desde o início da cultura. É uma  história interessante, que permeia talvez todas as civilizações. O sacrifício é um rito e segue diversas regras, como já era de se esperar ao se lidar com o sagrado, na Grécia, antiga, no judaísmo, no Islã, no Candomblé. Tive proximidade com duas delas: o Judaísmo e o Candomblé. No judaísmo, o sacrifício é conhecido como Korban, palavra oriunda do hebreu karov, que significa “vir para perto de Deus”. No judaísmo ouvi falar na alimentação kosher. O sacrifício de um animal, em língua árabe, se diz Qurban. A palavra possui em certas regiões uma conotação pagã. Na Índia, porém, a palavra qurbani é utilizada para o rito islâmico de sacrifícios de animais.

Como já disse, tive um contato mais próximo com o judaísmo e o candomblé. Ao judaísmo me converti muito honrada. Fiquei sabendo que se pratica o abate ritual – kosher – feito de forma que o animal não sofra, usando-se para isso um perito no manuseio de uma faca chamada Halaf, e seguindo uma série de regras.

No candomblé participei de um ritual e só na hora é que fiquei sabendo que um cabritinho ia ser sacrificado em honra aos meus deuses.  Antes de qualquer reação minha, o Babalaô disse: “Não chore”. Depois encostou a cabecinha dele na minha, pediu que eu segurasse a cabecinha dele, o olhasse nos olhos e dissesse: “a mesma lei que vai levar a tua vida agora vai levar a minha, um dia”. Foi duro, mas eu me senti fazendo parte da grande vida.

Agora chega. Nada disso é o meu ponto.

O meu ponto é o nível de afastamento do Sagrado na nossa atual civilização globalizada . Nada mais é sagrado. Não há limites para a nossa ganância, para a nossa cobiça.

Não vou descrever para vocês como galinhas e codornas são tratadas nas grandes granjas. Nem como se faz um patê de foie gras, e centenas de outras delícias da culinária simples ou exótica.

Não é nada, não é nada, escolher comer assim ou assado não é uma escolha de paladar, mas uma escolha da alma: entre o amor e a morte. Hoje estamos hipnotizados para ter prazer até onde o nosso dinheiro puder pagar, e que possamos pagar cada vez mais!

Não interessa mais se temos religião ou não: não praticamos o amor, que é o cerne de todas elas. Vivemos na esbórnia espiritual. Parece que o grande McDonald’s que existe em torno de nós ou nas telas dos nossos computadores é para a atenuar o vazio enorme que fica na alma, a lancinante solidão, a dor da perda insuportável de não saber qual o propósito de estarmos vivos. Vamos nos divertir, nos divertir até chorar, como acontece com crianças muito pequenas, às vezes.

Pensamos adorar a racionalidade e a ciência. Não. Adoramos o bezerro de ouro e estamos na Kali Yuga dos indianos: os párias estão no poder, e isso é contagioso. É só uma brechinha, uma pequena concessão nos nossos princípios, e ela te seduz.

Dá para reverter. Que comece por mim, e agora. Vamos ter que fazer amizade com o que é simples, claro e reto.

 

 

7 comentários em “A escolha

  • 17/03/2012 em 13:11
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    Ô Kaly-yuga danada… é cada coisa que a gente vê por aí…
    Já fui vegetariano pormais de 5 anos. Hoje, qdo como carne reverencia àquele ser que andou por este mundo e agora me alimento de sua proteína.
    Namastê a ele, a ti…

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  • 03/03/2012 em 13:16
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    Oi, Rosângela!
    Muito bom! Gostei muito! Parabéns!
    Grande abraço,
    Raul

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  • 03/03/2012 em 12:51
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    Deveras, hoje comemos sem pudor, antes pelo menos tinhamos fome e, quando acordávamos na caverna, depois de três dias sem comer uma perna de sapo, se víamos uma perdiz, erámos capazes de correr duzentos quilômetros por um pedaço de carne… Uma vez uma mãe levou uma criança ao médico. Raquítica, ao examinar o pequeno, o médico perguntou à mãe: seu filho toma leite de vaca? Não, respondeu a mãe, só de caixinha.

    Triste, os animais estão sendo comidos, e o que é pior, muita gente não sabe a origem de sua comida. Não sei se você já viu um programa sobre a Dra Temple, a mulher é autista, especialista em dar um trato HUMANO aos animais que vâo para o abate, a Dra Temple faz questão de ver os animais pela ótica deles, é como se ela se transformasse em uma vaca a caminho do abate.

    Falta-nos compaixão com o sofrimento dos animais. O último ato de sanidade de Nietzsche, antes de cair na bruma da loucura, foi em Turim, quando o filósofo do bigode presenciou um carroceiro batendo em um cavalo. Nietzsche tomou o chicote do homem e abraçou o animal…

    Muito boa a sua crônica.

    Salve,

    Carlos

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