A era do degelo social

por José Roberto Padilha*

Ilustração: Tunico

Tudo parece desaguar sobre nossas cabeças durante a era do degelo social, que se descola a cada dia das encostas dos preconceitos acumulados pela humanidade. Antes do primeiro bloco ruir, nossos avós nos ordenavam sair de casa, nossos pais a gentileza de deixá-la, a família se omitia a cada frente fria que surgia.

Quem era gay se escondia, e sofria em silêncio sua opção sexual. Quantos relacionamentos viveram na alcova, debaixo dos cobertores, sem ganhar a luz do dia antes que o STJF referendasse a união afetiva entre pessoas do mesmo sexo?

O negro, que nem sonhava ter um dia cotas para deixar a escuridão, perambulava entre sua escola pública deficiente e seus trabalhos semiescravos em extremada resignação. E ai daquele que empunhasse uma faixa em prol da descriminalização da maconha!

Eram épocas em que as mulheres não haviam alcançado a presidência da república, muito menos conheciam a Lei Maria da Penha – e apanhavam também em silêncio. Períodos em que governantes erguiam avenidas, arquitetos e engenheiros projetavam e construíam prédios sem estar nem aí para a acessibilidade de uma minoria. Se não havia direitos, quanto mais os estatutos que, hoje, protegem a vida dos idosos, das crianças e dos adolescentes, dos portadores de necessidades especiais.

Tais inusos e maus costumes passaram imutáveis por gerações. Cada mudança comportamental levando séculos para ser implantada, apesar de debatida em almoços dominicais onde toda a família opinava, isto é, os mais idosos impunham valores, os mais novos acatavam. Quando temos que discutir com nossos filhos, e os professores com seus alunos, todos os novos direitos sociais que assolam as encostas e as praias deste secular comodismo, não encontramos referência, parâmetros, jurisprudência – e eles surgem, cada vez mais, por todos os cantos da sociedade, e ganham destaque na mídia na velocidade de um trem-bala –, enquanto nossas experiências em debatê-los remontam às Marias Fumaças, que lentamente desembarcavam em cada estação da nossa formação.

Outro dia, a Rede Record apresentou, em horário nobre, o primeiro beijo gay explícito da história da nossa televisão. Há alguns anos seria simples: nossos avós quebrariam a tevê, nossos pais trocariam de canal. Mas a geração do degelo social, inclusiva, testemunhal, mesmo carregando no DNA inevitáveis e generosas porções de homofobia, racismo e tantas outras mazelas impregnadas, precisa, e deve, se afastar do controle remoto e encarar as consequências daquele encontro salivar. Discutir cada questão sem medo e sem opiniões preconcebidas.

Como tudo que é novo e vem fora da caixa, sem manual de instruções, os direitos descongelados das minorias devem ser motivos de orgulho, e não de inquietação, para todos nós que lutamos, e votamos, por uma sociedade mais justa e democrática. Afinal, lidar com inéditas experiências de liberdade é muito mais saudável do que apenas sonhar com elas: como escrever poesias e músicas, idealizar um país soberano, como o fizeram gerações anteriores à nossa,  no exílio ou nos  sombrios porões da ditadura.

*José Roberto Padilha, 59 anos, é técnico de futebol, jornalista e ex-jogador de futebol profissional, com passagens pelo Fluminense, Flamengo e Santa Cruz de Recife. Em 1971, defendeu a Seleção Brasileira de Futebol Sub-20, campeão do I Torneio de Cannes. Foi tri-campeão estadual pelo Fluminense, bi-campeão da Taça Guanabara e bi-campeão pernambucano, pelo Santa Cruz. Crônicas de um ex-jogador, seu 4º livro, a ser publicado em breve pela KBR, recebeu medalha de bronze do I Premio João Saldanha de Jornalismo Esportivo 2010, promovido pela ACERJ (Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro) e ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Atualmente é Secretário de Esporte e Lazer da Prefeitura do Município de Três Rios-RJ. 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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