A era da mobilidade estática (e outros paradoxos prementes)

Pra começar já vou logo confessando que, sim, tenho um passado de malhadora, meditadora e adepta de tudo quanto é tipo de dieta por várias e irrepreensíveis razões, sanitárias, estéticas, humanitárias, listem aí.

Sempre fiz tudo diretinho, do dentista ao ginecologista como mamãe me treinou, mas a indústria do consumo alarmista continua firme na frente: a bola da vez é o tal parabeno, mais recente na lista de agentes provocadores de câncer, e para nosso desesperançado tédio de pacientes condenados de antemão, presente em quase todos os cosméticos e cremes à mão, argh (pior: pra meu desalento de internauta equivocada, embora  somente esta semana eu tenha lido a terrível notícia, pesquiso melhor para escrever a crônica e descubro que o componente foi condenado em 2008 e descoberto em 2004, um milagre eu ainda estar viva, né? Vai ver é porque me limito ao Creme Nívea de sempre, sei lá, que câncer à parte contém óleo de Jojoba e vitamina E, mas por via das dúvidas eliminou da embalagem qualquer referência ao restante da fórmula sem que ninguém percebesse).

Acompanho também emocionada pela internet às patéticas tentativas da indústria do exercício para conquistar os últimos bastiões da renitente e muito humana preguiça: instigante artigo no Globo também esta semana afirma que bastam 15 minutos por dia para prolongar consideravelmente a sua vida, e pensar que já malhei 3 horas todo dia por mais de dez anos da minha, que desperdício… E alívio, claro, por não precisar mais desse sacrifício. Isso, pra não mencionar o bem planejado esquecimento da mais antiga técnica de relaxamento de que se tem notícia: dormir, um hábito em franco processo de desgaste e apagamento (sem trocadilho) após o advento de tal quantidade de gadgets conectados, com destaque para a mobilidade inteligente, que para praticá-la não sobra muito tempo, sabem como é.

Bom. Nada disso se compara à saga da comida orgânica, vamos combinar. Quando há mais de vinte anos optei consciente pelo vegetarianismo, a gente se sentia realmente especial — como se estivesse doente, já que não “podia” comer quase nada: com as raríssimas exceções das lojas de “produtos naturais”, já naquela época maravilhosas apenas nos Estados Unidos, não se encontrava nas prateleiras quase nada que garantisse uma alimentação frugal, quer dizer, fundamentalmente frutariana, à qual fugiria toda infrutífera tentativa de um cardápio cozido com gosto, qualquer gosto, se é que vocês me entendem: a coisa era tão dramática que meu primeiro livro publicado, Eu, Xamã, incluía uma seção inteirinha de esforços culinários para obter um sabor ao menos razoável — e sem aquela desanimadora aparência de alpiste — que eu já na época intitulava “vegetariano gourmet”. Deveria ter patenteado, confiram, imperdível: “O número de adeptos vem crescendo, e também o de restaurantes e mercados, enfatizando essa tendência evolutiva. A culinária vegetariana pode ser criativa, exótica e rica, bem diferente da imagem insossa e monótona divulgada pela nem sempre honesta indústria alimentar”, profeta, eu. Hoje em dia o “vegetariano gourmet” está por todo lado, enchendo os cofres da “indústria de tendências” da qual somos voluntárias vítimas. Azar o nosso.

Com tudo isso rolando, fico imaginando se o real objetivo dos conspiradores ocultos que comandam nosso comportamento não seria provocar um enjoo tão grande, mas tão grande, por conta do excesso de informação, que a gente optaria obrigatoriamente por resolver tudo com meia dúzia de pílulas caríssimas já certamente em pleno desenvolvimento, deixando mais tempo para todas as outras atividades indispensáveis de nosso cotidiano acelerante. Nisso, o Alan, com suas dores constantes, já vai lá na frente, pronto para a experiência: any pill goes! Esta semana, por exemplo, passou três dias desconectado da própria mente por conta de um analgésico recomendado pelo cardiologista que, fala sério, faz tão mal à saúde que a Anvisa resolveu a questão anexando uma tarja preta, mas quem sou eu para criticar?

Pois é. O que me resta comunicar é que depois de eu começar a trabalhar seriamente deixei de lado todas essas providências prementes: nada disso é importante na vida realmente, sorry. Como e bebo o que há e o que dá, com Alan reclamando da cozinheira negligente. E meus 15 minutos em pé na cozinha enquanto preparo o almoço — sempre atrasado para a fome que ele sente — parecem ser suficientes pra me garantir uma tranquilizante expectativa de longevidade, isso, sem mencionar o sobe-e-desce diário dos poucos degraus que me levam ao escritório onde tenho pisado raramente: com a mobilidade crescente, prefiro trabalhar no sofá da sala mesmo, e quando a tarde esquenta de verdade, na sombra da varanda da frente, sentada com meu notebook e telefone sem fio no chão de pedra refrescante.

Agora, o que eu acho que está acontecendo de verdade é que o cérebro está se tornando finalmente o grande centro de desafios e resultados: cada vez mais as coisas vão rolando dentro da mente, a nossa, individual, e a coletiva, impositiva e crescente. A cada novidade que aparece, e que mais cedo ou mais tarde se torna parte integrante da gente, é mais um tanto de coisas que é preciso aprender rapidamente pra seguir vivendo neste mundo, simples assim.

Esta semana, por exemplo (ô semaninha braba, sô!), acrescentei ao meu arsenal de tecnologia básica o Galaxy Tab, um brinquedinho fascinante, que já começou causando problemas no meu confuso, ansioso, superlotado e apaixonado cérebro de executiva cyber-oficial: já nem sei bem se é no teclado ou na tela de toque que estou digitando esse texto hoje, juro. E é ao meu tablet novinho que vou me abraçar nesses raros minutos de folga que passam tão vertiginosamente, que namorar que nada. Não é à toa que Alan, coitado, tem se sentido abandonado ultimamente.

E um bom descanso procês, que ainda  têm tempo de ter um domingo semanalmente. Um luxo, francamente.

 

2 comentários em “A era da mobilidade estática (e outros paradoxos prementes)

  • 21/08/2011 em 12:47
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    Magno, gostei dessa sua observação sobre “sustentar o sistema”. Procuro passar longe.
    Temos um kindle tb, foi nossa primeira aquisição e por causa dele criamos a editora… 😉
    Quanto ao Galaxy, minha decisão foi motivada por: preço, camera & celular. Eu precisava urgente de algo que lesse QR Codes, vc já saberá por quê. Era ou um celular caro ou… um tablet pelo mesmo preço. Por eqto parece que vai decolar, fora que de vez em quando a rotação da tela bota o conteúdo de ponta cabeça e ainda não descobri por que, hahaha!
    Mas todos os meus ebooks já estão lá, o aplicativo é bem legal.

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  • 21/08/2011 em 12:29
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    Noga,

    A medicina está tão avançada que, quando morremos, já estamos quase curados. Em um episódio de House, ele menciona que, se pegarmos de forma aleatória qualquer pessoa na rua, ela será portadora de duas doenças diagosticáveis. O que acontece é que podemos passar a vida sem que essas doenças nos incomodem, mas, aqueles que as percebem e procuram os médicos, sustentam o sistema.

    Quanto ao Galaxy Tab, sinto informar-lhe que prometi nunca mais comprar nada da Samsumg nessa área. Espero, de coração, que você não descubra porque e seja mais feliz que eu. Agora sou um feliz proprietário de um Kindle 3 (aguardando as novidades que a Amazon insinua para breve) e de um iPad 1.

    Estou aguardando para o upgrade para o iPad 3, se, e somente se, a diferença tecnológica valer a pena.

    Por curiosidade, você sabe a diferença tecnológica entre o iPad 1 e 2? Cola. Sim, aquela invenção milenar dos alquimistas árabes 🙂 No 2 tiraram a peça que servia para de estrutura no iPad 1 e substituiram por cola. Resultado, emagreceu 80 gramas. Essa dieta não dá para fazer em casa 😉

    Abraços!

    PS.: para ser justo, fizeram um upgrade no processador e colocaram uma câmera no iPad 2 também. Mas, isso não foi suficiente para justificar a minha migração.

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