A dois passos do paraíso

012211_GirlsDay_ESCALATOR-BW (1)O mundo era mais simples, mas já era maravilhoso. A década de 1960 mudava o Brasil e o mundo: Brasília, Brigitte Bardot, o Vietnã, a corrida espacial, a Guerra Fria.

Minas não podia ficar para trás, e em Belo Horizonte, no centro da capital, surgia a Galeria do Ouvidor, o primeiro Centro Comercial de grande porte da cidade. O ano, 1964, mudaria a história do país. Para um garoto do interior, viajando para visitar a capital, o momento político que iria influenciar minha geração estava a anos- luz de minhas preocupações. Eu só sabia que era época de viajar, ficar na casa da tia Mabel e de minha prima Ana.

Explico melhor: todo final de ano saíamos de Santo Antônio, no interior das Gerais, para passar as festas de fim de ano na casa da Tia Mabel. Minha mãe e ela, além de irmãs, eram muito ligadas, como dizia o povo: “mais unidas que boca de bode”. Assim, todo ano pegávamos a “Jardineira”, único ônibus da região — se é que aquele veículo poderia ser assim denominado, fruto de uma mistura de caminhão com uma carroceria fechada, algumas janelas e um motorista valente — e partíamos para nossa jornada. Embarcávamos na “poderosa” e, depois de muito pó, poeira e solavanco, chegávamos a Belo Horizonte.

Mal avistava a rodoviária, meu coração disparava! Não era porque eu amava a cidade, mas porque Ana estaria ali! Eu tinha 11 anos, ela 13, eu era um garoto, ela já era menina-moça. Desde o último Natal, quando a vira usando um vestido rodado branco e adornando seu alvo pescoço uma correntinha de ouro, de onde pendia, sem ostentação, uma pequena cruz do mesmo metal, eu estava apaixonado!

Não sabia ainda o que era o amor, só sabia que tudo o que ela fazia estava certo. Se ela sorria, eu sorria também. Toda brincadeira que ela propunha para os outros primos, ali reunidos, eu era o primeiro a apoiar.

Ela era linda! Mais alta um palmo do que eu, com a pele alva, olhos de um verde discreto, cabelos castanhos escuros e um sorriso que iluminava o mundo. Quando ela sorria, apareciam duas covinhas, que se alinhavam com o formato da sua boca.

Enquanto revia a cena, meu coração batia descontrolado. Um ano mudara muita coisa, eu tinha crescido, e me sentia maior, usava agora uma calça jeans da marca Topeka e ganhara de presente de Natal antecipado um tênis Rainha feito de couro. Eu o usava, com a certeza de ser quase um adulto.

O ônibus parou e mal me contive para não sair correndo do meu lugar. Esperamos nossa hora de nos movimentar e descemos em fila indiana. Nos esperando, na plataforma de concreto onde tinha estacionado “a valente guerreira”, estavam nossos parentes. Enquanto as irmãs se abraçavam e os cunhados se cumprimentavam, Ana se aproximou, abraçou Regina, minha irmã, da mesma idade que ela, e então olhou para mim. Me deu um abraço, um beijo no rosto, e me disse:

— Puxa Marco Paulo! Você cresceu!

Respirei fundo, para não desmaiar de alegria! Era verdade. Apesar de ser dois anos mais jovem que ela, nós agora éramos quase do mesmo tamanho. Agradeci a meus antepassados e à genética de meu pai, que, do alto de seus 1,85m, me dera a chance de impressionar o amor da minha vida.

Era verdade! Nesse ano que se passara eu descobrira que o que eu sentia era amor! Vira os filmes de Elvis Presley no cinema da cidade, e percebera que um rapaz podia beijar na boca de uma moça, olhar nos fundos dos olhos dela e dizer:

—  Eu te amo!

Enquanto sonhava acordado, as famílias reuniram as bagagens e os presentes, e apertados, felizes e falantes, entramos todos no Chevrolet 56 do Tio Augusto. O pai de Ana era advogado famoso e bem-sucedido na cidade, não eram todos que tinham um possante daqueles. Enquanto todos tagarelavam, eu, quieto, apertado entre a prima e a irmã, sentado no banco de trás do carro, só queria que aquela viagem não terminasse.

Sentia o corpo de Ana junto ao meu e uma sensação desconhecida me percorria todo. Era parecida com a que eu sentira no dia que tinha tomado um choque no banheiro de casa. Só que agora a sensação era boa, mas eu estava tenso e elétrico.

Paramos na casa ampla e confortável dos parentes. Descemos e nos instalamos no quarto de hóspedes, eu com meus pais, Regina no quarto de Ana. Ela era filha única. Devia ser por isso que era tão bonita! — eu pensava com meus botões.

Depois do almoço, surgiu a novidade. Minha tia avisou:

— Nós hoje vamos à Galeria do Ouvidor! Vocês não vão acreditar! Tem uma escada que sobe sozinha! A gente põe o pé, e ela nos leva ao andar de cima, sem nenhum movimento nosso!

Por um momento, esqueci-me de minha paixão, e escutei com interesse a tia explicar aquilo que parecia a oitava maravilha da natureza. Tal sumidade havia sido instalada na capital há pouco, explicou com orgulho:

— É a primeira da cidade! Tem até fila para andar!

Assim, findo o almoço, e após o café, a prosa e o descanso obrigatório, fomos todos ver a maravilha tecnológica. O prédio por si já me impressionou. Tinha, se não me engano, 4 andares, e indo de um para o outro… “Ela”.

—  A escada rolante! — a voz da tia aumentou meu espanto. Aquilo não podia ser coisa de Deus! Mas era!

O negócio parecia uma escada comum, mas a gente via que era de metal, e os degraus iam surgindo um atrás do outro, encolhidos no início para depois, como mágica, crescer e ficar no tamanho normal, como eram os de madeira das escadas comuns.

Havia uma fila enorme de pessoas, que, como nós, tinham vindo ver um negócio que parecia ser de outro mundo. No início da escada havia um instrutor; no chão, uma faixa amarela mostrava onde devia ficar a pessoa, até o danado de o degrau começar a crescer. Nessa hora, era acertar o passo e subir nele, se deixar levar.

Eu olhava aquilo sem saber se teria coragem de ir, e ao mesmo tempo não querendo fazer feio diante de minha amada. Ela, feliz e excitada, explicava como era bom subir naquele troço! Ana e os pais tinham vindo na semana seguinte à inauguração, e com o conhecimento e experiência adquiridos, sabiam de antemão o espanto que iriam causar nos parentes do interior.

Entramos na fila de dois em dois, e como se Deus me abençoasse, fiquei para subir na “escada do futuro” ao lado de Ana. Entre o terror e a animação, meu coração disparava. A fila andava, e quando chegamos diante da faixa amarela que separava os homens dos meninos, ela me olhou com seus olhos doces e disse:

— Me dê a mão Marcos Paulo! Eu te mostro!

Eu lhe estendi minha mão. Meu pavor se misturou com a sensação maravilhosa de seus dedos entrelaçados aos meus. O degrau de aço encolhido veio, que nem cobra se arrastando pelo chão. E quando o bicho começou a crescer, meu amor me disse ,já me puxando pela mão:

— Vamos!

Saltei, sem pensar! Pisei no degrau, que inchou mais rápido que bolo de mãe. Apoiei a mão solta no corrimão da escada, em cima ele era de borracha e dava segurança a quem o procurava. E assim foi.

Fomos subindo, eu e Ana de mãos dadas. Eu não sabia se chorava ou sorria. Apertei a mão dela e seu calor aqueceu meu coração. Chegamos perto do alto e ela, sorrindo, me disse:

— Se prepara para sair!

No final, o degrau começou a abaixar, que nem água em beirada de rio, e quando chegou perto da saída, ela me ensinou:

— Vamos!

Demos um passo em direção ao andar que surgia à nossa frente e nos vimos com os pés firmes apoiados no chão. O milagre tinha acontecido! Tínhamos subido de um andar para o outro, sem movimentar as pernas!

Ana sorria e batia as mãos, excitada com meu espanto e admiração. Enquanto víamos os outros parentes nos seguirem, se aproximando de onde estávamos, ela se virou, ainda sorrindo, e perguntou:

— Teve medo, Marcos?

Eu não conseguia responder de tanta emoção, de tanto amor, de tanta alegria. Movi o rosto de forma negativa e engoli em seco, com medo de tudo ser um sonho e eu acordar dali a pouco. Ela me olhou nos olhos e perguntou:

— Quer ir de novo?

Eu balancei a cabeça afirmativamente e tentei sorrir. Ela, sorrindo, me disse:

— Então vamos! — e estendeu novamente aquela mão que eu já conhecia tão bem!

E assim fizemos. Subimos e descemos várias vezes naquele dia a escada rolante da Galeria do Ouvidor em Belo Horizonte. Eram degraus diferentes, eu estava diferente! Naquele dia, eu vi que o mundo tinha mudado. Eu tinha mudado!

Descobrira que alguns degraus de uma escada rolante podiam nos levar para mais perto do céu!

 

 

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