A criação do céu na terra

“Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos”
Shakespeare

Ela ainda adolescia quando foi convidada pela direção do colégio católico a não mais assistir às aulas de religião. Era a segunda instituição de ensino que a dispensava daquela disciplina, considerando suas opiniões e animada participação durante as aulas totalmente inconvenientes.

A primeira vez aconteceu numa escola judaica, com direito a replay no colégio dos padres. O resultado é que, duplamente desapontada, ela foi categórica na decisão irrevogável que tomou aos onze anos:  “Juro que nunca mais estudo religião! Deus a gente sente, não aprende em livros…”

Como Deus sabe o que faz, ele logo a fez experimentar o verdadeiro sentido da palavra religiosidade: chegava o fim de mais um ano escolar e o professor de português solicitou a cada aluno uma avaliação sobre a própria dedicação e empenho nos estudos da matéria. Pediu que fizessem uma profunda reflexão e que se pontuassem, honestamente, com a nota que julgavam merecer,numa escala de zero a dez.

Sem dúvida uma novidade excitante para a turma de crianças entre os dez e os onze anos! Um exercício que deixou a sala em polvorosa quando o professor garantiu que a tal nota não seria questionada ou alterada por ninguém. Valeria integralmente na soma dos pontos que garantiriam (ou não) a passagem do aluno para o próximo ano.

Pessoalmente, ela percebeu o evento como um avanço. Sentiu-se importante e adulta ao receber a tarefa, tratando de ser honesta ao avaliar as próprias falhas e atitudes. Entendia que era o mínimo a ser feito para honrar a confiança do professor. E foi com esses olhos que ela empreendeu o exercício da autocrítica, tratando-o com seriedade e total responsabilidade.

Ela sabia que, se costumava garantir boas notas em ditados e nas redações, era graças a uma habilidade natural. Mas se tivesse que explicar a razão de ter escrito uma palavra ou frase assim ou assado, penava. Sua sorte é que raramente cometia erros ortográficos, pois tinha horror a estudar qualquer matéria que lhe exigisse o saber excessivo de regras e “decorebas”. Sim, para ela era um inferno ter que explicar como funcionava a gramática nas provas de questões abertas. Desse modo, ela foi sincera ao considerar sua preguiça e falta de maiores esforços dignas dos cinco que oficializaram a primeira avaliação pessoal que fez na vida.

Até aí tudo certo, porém ela nunca se esqueceu do que lhe disse um colega ainda bem menos aplicado do que ela: depois de se vangloriar pela esperteza de se dar um “nove e meio”, riu na sua cara chamando-a de tola por ser honesta.

Na época desses acontecimentos ela não tinha a remota idéia de que buscava, essencialmente, uma comunicação com o espírito. Essa, porém, é uma longa história, com partes devidamente contadas no livro onde ela se confessa convocada para trabalhar pela criação do céu na terra. Portanto, me diga você: quantos aceitam a total responsabilidade de que cada ser encarnado deve manifestar o mundo de ética, amor e paz que a maioria diz querer? E se é mesmo assim, quando finalmente entenderemos que somos justamente aqueles por quem estamos esperando?

 

 

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