A costureira gentil

Gosto não se discute, se lamenta.

Vou mostrar um email que recebi da Cris. Interessante, essa Cris. Digo-lhe sempre que ela parece ter tomado umas e outras logo cedo, dada a alegria infantil que exibe no meio da manhã quando jogamos um tenisinho ou damos uma corrida pelo Clube Pinheiros.

A Cris é uma pessoa incrível, pois ao mesmo tempo em que, por um lado, parece ser muito mais jovem do que realmente é — na verdade parece uma menina, dando sempre sua gargalhada e correndo e saltando na quadra como uma moleca —, por outro é fiel em suas amizades, prestativa e caridosa. Nunca nega fogo quando se precisa dela. É das raras que sabem curtir uma boa bagunça, mas também está lá nas más horas.

Já situei a Cris para que o leitor possa imaginá-la enquanto lê, com sua abastada cabeleira preta cortada curta, sua silhueta de atleta, moreninha da coxa grossa, parando a cada frase para soltar sua risada: “Dei pra Lígia, irmã temporã da minha mãe, uma calça Diesel que comprei na Itália pro João e ficou grande. Como ela fez uma dieta show e já perdeu 20kg, quis homenageá-la com o “presentão”. A calça é toda rasgada e amarfanhada, como dita o código fashion da famigerada grife. Lígia adorou (a gente fica com o gosto tão “feliz” e liberado quando emagrece que se ama em toda e qualquer tralha que nos sirva…) e toda serelepe e rejuvenescida foi à costureira para fazer somente a barra, original, claro. Adivinha… Além da barra, movida talvez por um misto de pena, asco e gentileza, a profissional remendou todos os furos e rasgos do modelito milanês! Lígia me ligou hoje cedo agradecendo por ter um passatempo pro fim de semana chuvoso: tirar os remendos caprichadinhos sem estragar os rasgos e furos originais.”

Em tempo: João é o filho da Cris, já tem 18 anos, mas ela, como toda mãe, pensa que ele ainda é um bebê.

Fico imaginando a cara da minha mãe vendo a tal Lígia tirar os remendinhos. Ela era a pessoa mais caprichosa que conheci; me ensinou a costurar, mas enquanto ela fazia um vestido eu fazia sete (conta de mentiroso). Entretanto, quando a gente virava as minhas roupas do avesso, era um deus-nos-acuda, tudo esfiapando, sem arremate, mas eu, do alto de minha adolescência, estava mais interessada em usar um vestido novo a cada fim de semana. Quando marcávamos o bailinho de sábado eu corria para a lojinha da D. Zoraide, que ficava em frente à minha casa, escolhia um tecido qualquer e no dia seguinte, voilá, um vestido novinho.

Eu dançava muito, encarapitada nos saltos altíssimos, e quando voltava para casa tinha que colocar meus pés na água fria corrente para poder dormir sem dor.

Voltando à calça esfarrapada: francamente, a que ponto chegamos! Fazer uma calça novinha em folha e depois, de propósito, rasgar e esfiapar a dita. É a conhecida costumização. Bem, o fim do mundo está marcado somente para 2012, portanto relaxa, vai!

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

5 comentários em “A costureira gentil

  • 13/09/2011 em 10:03
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    Minha querida Priscila: Que maravilha saber que uma amiga tão querida, apesar de não estarmos em contato ultimamnete, está alçando voos solo tão diferentes. É, a customização é maravilhosa. Meu filhinho (29) chegou com a calça favorita, por coincidencia da mesma marca, e pediu-me para “dar 1 jeito”, enroscou a dita cuja no jipe. E eu prontamente “abri” minha maquina, coloquei 1 pedaço de jeans velho do avesso e …… costurei “vááárias vezes”. Quando ele viu a calça se indignou e disse: nossa!!! vc “estragou” minha calça!!! Minha norinha que estava ao lado me salvou e disse: Tia ficou ótima, está modernosa, e é melhor assim que mostar a cueca! Então vamos lá , seja que termo usamos mas que um “remendinho, um “jeitinho” aqui e ali fica moderno, resolve e eu adoro fazer,ihihih.

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  • 09/09/2011 em 19:23
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    Pri realmente incrível este look cheio de furos e desfiados,apesar de nào adotar, acho divertido!
    Minha màe que sempre costurava para mim e minha irmã iria ficar enlouquecida se visse estes modelitos,ela era muito caprichosa e dizia que a roupa que ela fazia poderia ser usada do avesso,tamanho capricho!!

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  • 09/09/2011 em 18:51
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    Engraçado ver a moda pela ótica feminina. Ainda mais para quem tem 3 irmãs e teve mãe das mais prendadas. Além de esposa caprichosa.
    Aprendi que a moda a ser criticada, ou comentada, é a dos outros (as).
    Mãe (mulher, claro) compra roupa da moda da época para os filhos (as), que são conforme você descreveu – rasgadas e desfiadas, quando não manchadas ou algo mais – e quando o marido compra e quer usar algo, ou mesmo ela quem compra, NUNCA pode ser sequer semelhante ou próximo da que comprou anteriormente. Como elas dizem, PODE?!?!
    Agora, o que não vale é essa costureira “auto-modista” que conserta o que NÃO está errado e ainda pode dizer: “fiz sem a senhora pedir e nem vou cobrar”! Hehehe
    Mais uma boa abordagem do nosso cotidiano, Priscila!

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  • 09/09/2011 em 12:27
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    Essa coisa de customizar as roupas, especialmente as calças é ótimo. Já faz muito tempo que não compro calças. As minhas vão ficando a cada dia mais condizentes com osnovos tempos! Quando rasgam estão no ponto! Tempos modernos!!!!! Espero que o fim do mundo não aconteça em 2012. Meus jeans ainda tem muito o que melhorar! beijo grande

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  • 09/09/2011 em 09:14
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    Pois outro dia fui com Alan a Petrópolis comprar uma bermuda nova, pois a dele “oficial”, linda, da Richards, estava naquele estado que vcs podem imaginar. Chegando lá, a que encontramos estava tão rasgada, mas tão rasgada, que perguntei à vendedora se ela não queria comprar a do Alan!! Era “autêntica”!

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