A comunhão gay

Documento lançado pelo Papa condena o casamento entre pessoas do mesmo sexo.  Inconformados, gays do mundo inteiro queimaram cuecas e calcinhas em frente à Basílica de São Jorge, lançando campanha pela apostasia – negação da fé católica.  

Leio na internet: PAPA CONDENA O CASAMENTO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO.

Absurda a declaração do Papado, exortando os governos do mundo terreno a proibir a união legal entre os homens que papam homens e os que gostam de ser papados (ou papadas) por outros (ou outras) do mesmo gênero. Em sua fala, o Santo Padre adverte que o casamento entre pessoas do mesmo sexo constitui ameaça à sociedade, já que a prática não garante a continuidade da espécie.  Ora, e se todos os homens e mulheres praticassem a castidade, qual seria o destino da humanidade?

Foi na Grécia que nasceu a pederastia. No diálogo O Banquete, Platão faz um alerta aos homens que preferem os mancebos, usando e abusando dos garotos para depois abandoná-los na sarjeta: “Seria preciso haver uma lei proibindo que se amassem os meninos, a fim de que não se perdesse na incerteza tanto esforço; pois é na verdade incerto o destino dos meninos, a que ponto do vício ou da virtude eles chegam em seu corpo e sua alma.”

Nem só de broa viverá o homem. Os gays, nesses últimos 2.500 anos de História, contribuíram às picas para a evolução da humanidade. Pra começar, repare no botão da camisa ou no fecho da calça que você está usando: o design é obra de um gay. O mundo da moda, aliás, é gay dos pés à cabeça, com uma parada obrigatória na região glútea.

“Toda glória é efêmera”, sussurrava o escravo ao general romano agraciado com os louros da vitória. Com a queda do Mundo Grego nas mãos de Alexandre, O Grande Gay, em 323 a.C, um século depois instalou-se o delírio de Roma, a cidade eterna, com seus teatros e estádios, suas festas aos deuses pagãos, as termas e os banhos públicos, as casas de massagens, as bacanais regadas a muito vinho e os sangrentos combates no Coliseu. Panis et circenses. Quanta beleza nos legaram os Césares, nas artes, no Direito, na arquitetura e nos costumes! E os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina  encomendados pelo Papa Júlio II, veio daí a palavra “frescura”.

No avião, sempre que o aparelho decola, você não sente um friozinho na barriga? Pois então, invenção de um grande gênio da aviação (estou falando do avião e não do friozinho na barriga)! Quanto ao chapeuzinho mole caindo nos olhos, aquele tipo nunca me enganou…

E o Sistema Solar de Galileu, com aquela parafernália esplendorosa de planetas girando em torno do sol, sem nenhum astro abalroar o outro? Como é que pode uma coisa tão maravilhosa? Gente! Mistério desvendado por um gay, que morreu queimado pela Santa Inquisição.

Leonardo da Vinci? Um dos maiores gays da humanidade: engenheiro, pintor, inventor, arquiteto, cientista, dentista, cartunista, pedreiro, manobrista, jardineiro e preceptor de meninos nas horas vagas.

Isaac Newton, a maçã e a lei da gravitação universal: se fosse na cabeça de um cabra macho teria despencado um coco da Bahia!

Sabe aquela porcelana que você ganhou de presente de casamento? Os brincos que você deu pra sua esposa? Arte gay. Cá entre nós, não sei se você já reparou, mas as mulheres mais gostosas do pedaço estão sempre rodeadas por gays. Ninguém consegue ficar imune, dois minutinhos sequer sem consumir qualquer produto que não tenha sido tocado pelo dedo sensível de um gay.

É humanamente impossível separar e classificar os acontecimentos, os grandes nomes, as grandes obras artísticas, as grandes descobertas científicas, os grandes feitos da cultura, por categorias de comportamento sexual.  A filosofia e a arte não têm sexo. As maiores descobertas da humanidade são frutos do agir coletivo (a roda, o chicote, o arreio e o arado são exemplos), do compartilhamento e da comunhão. No mundo das ideias, tudo aspira ao belo, seja homo ou hetero, ensina-nos o mestre Platão. A propósito, vejam esse vídeo no youtube: 1 em cada dez argentinos é gay!

Quem nunca ouviu falar da cervejaria de Munique nos anos trinta do século passado? Foi lá que se reuniram, pela primeira vez, com seus cabelos louros, a face dura e os olhos cor de gelo, botas de cano longo impecavelmente lustradas, dólmãs enfeitados com medalhas chiquérrimas, os alemães que fundaram a elite militar do Nazismo.

Mas eles não estavam ali apenas pra beber cerveja. De 1939 a1945 o mundo tremeria sob o tacão das botas acolchoadas, especialmente fabricadas com pelo de urso panda para um gay de bigodinho, conhecido pelos íntimos como Adolfinho. Alguém duvida? Está tudo no livro A vida secreta de Hitler.

Da Grande Guerra nasceu a Paz. Capitaneado pelos beatniks, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, o movimento hippie botou o pé na estrada, levando a tiracolo o rock com suas guitarras elétricas, as drogas e a contracultura, e então o mundo, outrora cansado da Guerra, converteu-se no solo propício para que a juventude pudesse espalhar o seu lema: Paz e Amor. Por vias tortas, o que foi o maio de 1968, senão um espasmo orgástico em plena guerra fria? Por alguns meses, os jovens acreditaram que as flores venceriam os canhões.

Às vezes, em certos momentos difíceis da vida, precisamos de um gay para nos ajudar a encontrar a saída. No filme “Ninguém é perfeito”, Robert de Niro, na pele de um ex-policial, sofre um derrame e passa a depender da ajuda de uma Drag Queen, seu único amigo.

Abra os olhos: quer você goste ou não, há um gay gerenciando sua vida, fazendo a cabeça de seu filho, ditando os últimos acontecimentos da moda, do cinema e da literatura, comandando a Administração Pública e a Privada, atuando nas mais altas esferas da política.

Não há fato que resista a um bom boato. Quanta maledicência se inventou sobre a pessoa de Freud, devido à sua compulsão por viver com um charuto na boca! E quem foi um dos grandes biógrafos de Freud? Não foi outro, senão um cara chamado Peter, Peter GAY.

Quantos homens não se casaram com mulheres só pra escapar da boca do povo? Tchaikovsky foi um deles. Assim ele escreveu à Antonina Miliukova, sua mecenas: Busco no matrimônio uma espécie de compromisso público com uma mulher, a maneira de tapar a boca de tanta gente desprezível.”

Mas, e quanto aos direitos humanos das pessoas ditas normais? O direito positivado é fruto das relações sociais.  Primeiro, a sacanagem eclode no mundo dos fatos; só depois é que surge o “Direito”, impondo as normas jurídicas para pacificar a sociedade. O Judiciário do Rio Grande do Sul, terra de gaúchos machos, foi o primeiro a garantir aos casais homossexuais o direito à sucessão hereditária. A Previdência Social teve que curvar a espinha contra a enxurrada de ações judiciais, até ser obrigada a amparar o companheiro supérstite (supérstite é o gay que sobrevive à morte do companheiro) com o direito à pensão. Depois de muita polêmica, em sessão histórica, no dia 05 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união homoafetiva como entidade familiar, garantindo aos casais gays os mesmos direitos conferidos às uniões estáveis entre homem e mulher.

No mundo da economia, a ordem é o preconceito zero; as indústrias se especializam, fabricam móveis, inauguram bares e promovem pacotes turísticos sob medida para o público GLS. Não importa a cor do gato, desde que ele coma o ratinho cor-de-rosa – esse é o lema do mercado.

Não é pecado algum o cara ser gay. Isso é intriga da oposição. Por sua vez, não seria conveniente, no curto espaço desse simpósio, abordarmos a questão dos padres pedófilos. Não é assunto para a família cristã. Deixemos o caso tramitar em segredo de justiça.

Todo homem, toda mulher, tem algo de veado. Tudo está interligado. Todos os seres circulam uns nos outros, já dizia o filósofo Denis Diderot. Se a natureza dependesse do que pensa a Santa Madre Igreja, até hoje estaríamos na Idade das Trevas, a Terra Quadrada seria o centro do Universo, a cerveja que desce redondo pelos mictórios jamais teria sido inventada e a Inquisição ainda estaria caçando bruxas e queimando bichas em praça pública. Eppur si muove. Quanto à Teoria da Evolução das Espécies, o Vaticano só vai se posicionar no dia em que um homem virar macaco.

Retornando ao mito contado por Aristófanes no Banquete de Platão, o futuro, para o cientista italiano Umberto Veronesi,  pertence aos andróginos. A espécie humana deve caminhar para o bissexualismo “como resultado da evolução”, ele afirma. O homem, o macho, está perdendo suas características, a produção de esperma caiu pela metade depois dos anos 1950 e o útero feminino, com o avanço da clonagem, perdeu a exclusividade no processo de fecundação. Finalmente, o ideal platônico do amor, pela contemplação da beleza em si e não nos corpos, poderá ser realizado, libertando-se o homem das correntes pegajosas do intercurso sexual.

Olha, minha gente, tem mais uma coisinha apenas: eu não sou pago para defender os gays. Os homossexuais sabem se virar sozinhos, e muito bem! Mas acho uma sacanagem esse lance de os gays, em protesto, como um bando de gazelas ensandecidas, negarem a fé católica e saírem por aí queimando calcinhas. Quanta falta de solidariedade com seus irmãos de túnica e estola! A fé não tem sexo nem religião. Quem sabe o Vaticano não terá prestado um grande favor à causa dos apóstolos do Arco Íris, ao declarar abertamente o medo que não ousa admitir? Um dia, os gays vão dominar o mundo. A propósito, você já comungou hoje?

 

Nota do autor: publicado no sítio da REFAZENDA em 04/08/03.

 

 

 

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