A besta-fera

SabrinaMoro com três gatos. Duas fêmeas e um macho. As fêmeas são mais ariscas, o macho é mais folgado. Uma das fêmeas é do que se chama, nas lojas de pets, raça “siamês brasileiro”; é a mais velha e a menor. Os outros dois são gatos de rua — de onde eu peguei o Joca —, ou descendente de gatos de rua (Sabrina). Sabrina me foi doada por um veterinário que tinha me prometido dois gatinhos, esqueceu, eu cobrei, daí um dia me ligou: “Tenho aqui uns flagelados”. Foi assim que eu trouxe para casa a gata Sabrina (linda) e sua irmã Nikita (feiosa).

Elas eram tão pequenas — acho que tinham pouco mais de um mês — que quando iam comer, num pratinho bem pequeno, acabavam por mergulhar nele e saíam deixando pegadas de ração úmida por todo lugar onde andavam, porque ainda não podiam comer ração seca.

Foram crescendo, e eu um dia não resisti ao charme do Joca, um tigrado lindo que foi abandonado na praça, e o trouxe para casa. Assim, fiquei com quatro gatos. Minha casa não comporta esse número de felinos, então comecei a falar em doar uma das duas irmãs, até que um dia a faxineira falou que queria ficar com uma delas e escolheu a Sabrina, claro, era linda. Porém, na hora H de levar a gata, a faxineira disse que levaria Nikita.

“Por quê?”, perguntei. Resposta: porque a Sabrina não gosta de mim e a Nikita é supercarinhosa. E levou a feiosa, pela qual ela e seu marido se apaixonaram profundamente.

Assim ficaram três gatos, que se tornaram adultos. Na medida em que cresciam, definiam-se suas características de personalidade (sim, gatos têm personalidades variadas). O Joca ficou grande e folgado — até hoje detesta ser mudado de lugar, rosna baixinho e larga o peso, para ver se você aguenta. E Sabrina acabou se tornando a gata-plus: a mais ágil, mais forte, praticamente do tamanho do Joca, e a mais arisca…

Num dia em que a vi saltar, escrevi: “Que salto magnífico, minha gata Sabrina! Você é mesmo da raça feroz dos vira-latas brasileiros”.

Cresceram mais, até que não consegui mais cortar-lhes as unhas, porque já lutavam contra a situação de serem imobilizados por uma amiga com uma toalha, enquanto eu as cortava. Aí começou o perrengue de ter que pegá-los, colocá-los nas caixas de transporte de animais e esperar que o profissional viesse pegá-los, já presos, para levá-los para a pet-shop para banho e corte de unhas. Logo me dei conta de que não podia esperar o funcionário para pegá-los, depois de um luta espetacular da Sabrina com um casal deles. Ficaram riscas de sangue nas paredes da cozinha e eles com finos e  longos arranhões sangrando nos braços. Pedi para pararem e voltarem outro dia, mas eles, já feridos, queriam pegá-la, já por uma questão de honra. Ufa, consegui convencê-los, mas agora tinha que lidar com esse problema: eu mesma teria que prendê-los nas caixinhas primeiro e só depois chamar o transporte para a pet-shop.

Era um estresse danado o dia que eu tinha que fazer isso, porque mal pegava as caixinhas e colocava em algum chão, eles já percebiam e se escondiam. Podem crer que gatos se escondem muito bem. Para resumir, depois de muita luta lembrei que o lugar certo para pegar gatos é no cangote, no lugar onde as mães gatas pegam seus filhotes. Comprei uma luva de marceneiro para usar na mão esquerda e pegar o cangote bem apertado com a direita.

Foi dando resultado. Até que um dia, quando fui pegar a Sabrina, ela já tinha dado um jeito de proteger o cangote com uma nova torção de corpo e uma das patas cheia de unhas gigantes! Caramba! Essa gata é muito esperta! Mas não pode ganhar essa disputa de supremacia de jeito nenhum. Então, espremi a cabeça dela no chão com a mão enluvada, impenetrável, e aí pude apertar seu cangote com toda a força e arrastá-la para fora do beco doméstico que ela escolheu, muito bem, aliás, para se proteger do banho e corte de unhas.

Já com a gata sob controle, falei: “Gata burra! Se você me dominar eu terei que doá-la, e você vai perder as regalias desta casa: amor, carinho todo dia, comida e lugar limpo para cocô e xixi.”

Por alguma razão, tenho muito ouvido falar de dominar os demônios interiores, nossos próprios sentimentos baixos e mesquinhos, que recebem vários apelidos: ego inflado, ideias e sentimentos recalcados, a Doença — segundo o excelente cabalista Ian Mercler, simbolizados pelo Faraó na época de Moisés no cativeiro, a fera que em nós habita. Li que um índio sábio tinha dois cachorros. Um era bom e o outro mau. Perguntado sobre qual dos dois predominava, ele respondia sabiamente: o que eu alimento.

A fera em nós. A fera fora de nós. Mas entendi também que não são duas feras. É uma só: a alma ferida, quando, aos poucos, vai percebendo que não é o centro do mundo nem o rei-bebê que precisa ter seus desejos atendidos IMEDIATAMENTE! Como isso é impossível, essa fera interior nos atormenta com o propósito de tomar o nosso lugar, o lugar da nossa consciência e o comando do nosso corpo. Ela não precisa ser castigada ou presa — em qualquer brecha nossa de autoindulgência ela saltaria para fora, irada, e se expressaria com violência através de nós e eventualmente CONTRA nós. Ela precisa ser ADESTRADA COM AMOR, como todo ser vivo na sua infância e outros inícios. E, assim, se tornar nossa melhor amiga e nossa protetora, em caso de perigo real.

É muito bom que eu tenha a Sabrina para treinar, porque esse é um relacionamento — eu e eu fera — para vida inteira, e precisa ser mantido em bom acordo, para o sossego e paz de espírito de todos.

 

 (Publicado também aqui)

 

 

 

 

4 comentários em “A besta-fera

  • 30/03/2013 em 11:53
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    Oi Rosângela!
    Saudade das crônicas de sábado!
    Mas, pelo jeito as férias só fizeram bem!
    Bela crônica! Bela conclusão!
    Também sou “gateiro”!
    Acho até que gatos são seres superiores.
    “Entender, tolerar e aceitar!”
    Parabéns!

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