A arte de cortar palavras

Georges Simenon em1963, fotografado por Erling Mandelmann
Georges Simenon em1963, fotografado por Erling Mandelmann

É muita pretensão minha escrever sobre um tema tão complicado e complexo. Será que pensam que virei autoridade no assunto? Que passei a me achar um escritor importante?

Nada disso. É simplesmente uma crônica baseada no que pensam grandes escritores, e que irá, acredito, nos ajudar, pobres aprendizes, a melhorar o que fazemos — ou por profissão, ou por diletantismo, ou ainda para passar o tempo.

O grande poeta Manoel Bandeira dizia sempre que a linguagem tem que ser simples, por ser ela que representa a forma popular de se falar e de se fazer entender. Este conceito eu sempre segui.

Quando vou comprar um livro, por mais recomendado que seja, por mais importante o autor, figurando ou não na lista dos mais vendidos, sempre abro a primeira página e vejo se está escrita na ordem indireta, repleta de exclamações e excesso de vírgulas e, o mais importante, se tem aquelas palavras esdrúxulas, que ninguém usa no dia-a-dia, que nem sei o que significam e me obrigam a recorrer ao velho “pai dos burros”. Esta falsa erudição é a maior prova de que autor e literatura nunca foram apresentados, e aquele gastou muito tempo buscando sinônimos em dicionários e compêndios. Fecho o livro e não compro, e se me emprestarem, digo que já li.

Nosso maior romancista, na opinião de muitos críticos e na minha modesta também, Erico Veríssimo, era outro mestre que desdenhava a chamada complexidade de palavras desconhecidas. Seu estilo era puro, simples, direto e objetivo. E exatamente por estas qualidades é que seu O Tempo e o Vento é um dos melhores romances da nossa literatura, senão o melhor. E em todos os seus volumes.

Zé Lins do Rego escrevia como conversava, sem frescura, sem essa retórica imbecil. O autor do extraordinário Fogo Morto é outro que sabia brincar com as palavras, talvez por ter tido sempre uma alma de criança.

Outro mestre que adorava escrever como se estivesse sentado em uma mesa, saboreando uma suculenta moqueca, enquanto ia inventando histórias, é o baiano Jorge Amado.

Minha querida Rachel de Queiróz, que me chamava de primo, dizia sempre que eu deveria escrever como se falasse; e as vírgulas, ela as colocava como se estivesse respirando.

Hoje em dia, quem tem este dom de escrever sem deixar você com a impressão de que é um analfabeto, acrescentando em seus textos sempre um comentário crítico e bem-humorado, é o jornalista e excepcional biógrafo, Ruy Castro.

As frases curtas, com mais pontos do que vírgulas, sempre diretas ou claras, são a marca registrada do velho homem do mar, o genial Ernest Hemingway. O mesmo estilo usavam outros mestres da literatura, como Jack London, Joseph Conrad, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, John dos Passos, Graham Greene, Balzac, Guy de Maupassant, e outros que não citei para não transformar esta crônica em catálogo telefônico.

Graham Greene, em seu livro Um americano tranquilo, usa o personagem que é seu alter ego — na adaptação cinematográfica interpretado por Michael Caine —, um correspondente de guerra, para fazer referência direta ao escritor mais fecundo da literatura mundial, considerado por críticos e vários de seus companheiros de letras como o maior romancista de todos os tempos: em um diálogo, o jornalista declara que seu sonho era poder escrever como Georges Simenon. O autor de 400 romances e contos — cerca de mil contos sob pseudônimos —, com mais de um bilhão e meio de livros vendidos em 47 idiomas, 300 filmes e séries baseadas em seus livros, declarava nas quase 1.500 entrevistas que concedeu que seu estilo era direto, com frases curtas, raramente usava ponto de exclamação e sua linguagem a mais simples possível.

Talvez por ter escrito tanto, e com surpreendente qualidade, é que Simenon era o romancista preferido do próprio Graham, de Cronin, de Henry Miller, de Camus, de Gide — que o chamava do Balzac do século XX —, de John Le Carré, de Scott Turow, da escritora inglesa Phyllis Dorothy James, e de diversos cineastas, como Jean Renoir, de seu grande amigo, o genial Federico Fellini, Claude Chabrol, Jules Dassin, Jacques Deray, Georges Clouzot, Bertrand Tavernier e muitos outros.

No Brasil, voltando ao nosso querido Erico Veríssimo, em seu livro de memórias Solo de Clarineta declara textualmente, não me recordo em qual dos dois volumes, que “gostaria de saber escrever como Simenon”. O mesmo fez Carlinhos de Oliveira, em uma de suas crônicas.

Sobre o escritor belga, sua obra e seu personagem mais popular, o “Commissaire Maigret”, existem mais de quatrocentos livros. Há uma unanimidade em torno do fato de que, além da análise profunda do ser humano, seu conhecimento de psiquiatria, de criminologia, de sua mente prodigiosa, o que o fez tão popular e tão conceituado ao mesmo tempo foi o estilo simples, o nenhum rebuscamento de palavras e sempre o uso da ordem direta.

Simenon creditava essa qualidade de escrever de modo simples aos vinte anos de jornalismo, começados aos 17 anos de idade e que se prolongaram durante muitos anos. Já famoso, rico e popular, não abria mão de fazer uma reportagem sobre um assunto palpitante. Aos novos escritores, aconselhava sempre que escrevessem seus livros como se escrevessem para leitores de jornais.

E é isso o que penso da complicada e difícil arte de escrever. Devemos ser simples, diretos e objetivos.

Para encerrar, fico com a frase do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras.”

 

 

5 comentários em “A arte de cortar palavras

  • Pingback: Meu amigo Maigret » Crônicas da KBR

  • 20/01/2013 em 11:41
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    Excelente, o autor precisa do “facão delete” para ajustar o exagero, que vez por outra ocorre em suas conversas com o próprio ego.

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  • Pingback: A arte de cortar palavras: o retorno » Crônicas da KBR

  • 12/01/2013 em 15:08
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    Gostei muito da crônica, Paulo, principalmente pela precisão do approach. Concordo, cada vez mais, que “escrever é a arte de cortar palavras”. Da voz dos mestres à prática diária, aprendemos constantemente que os melhores textos ficam ainda mais apurados depois de uma providencial autoedição. A propósito, tenho um amigo – o poeta Salgado Maranhão – que sempre se refere à necessidade desse aparar de arestas do próprio texto, o que ele chama de “capina”.
    Seu texto também me reportou à lembrança de um microconto de Ruskin, com ares de fábula, em que ele nos leva a concluir que as palavras sempre podem ser reduzidas em prol da clareza da situação. Certamente você deve conhecer a ilustração desse adágio, na célebre narração do diálogo entre um feirante num porto de Londres e seu sábio compadre. Este provou ao amigo que a sua frase publicitária “Hoje vendo peixe fresco”
    era absolutamente redundante, o que o feirante não compreendeu de início. O comerciante havia escrito tais palavras em um quadro-negro instalado próximo à sua banca de peixes. E o compadre explicou que poderia ser feita absoluta supressão daquele apelo verbal. E foram as seguintes as etapas de sua “poda”:
    – Primeiro, suprimiu o adjunto adverbial “hoje”, já que o fato só podia se referir à feira da vez, naquele mesmo dia;
    – Depois, retirou o verbo da oração. Alegou que não havia necessidade da flexão verbal “vendo”, já que se encontravam em um mercado, onde tudo é naturalmente vendido. Pois bem. E a frase ficou: “Peixe fresco”;
    – Diante disso (já parecendo a ambos que o anúncio já estava muito melhor), o compadre do feirante franziu novamente o cenho com a ideia de uma nova retirada. Disse, então: “Ora, todos que vão a uma feira o fazem exatamente por causa da mercadoria fresca”. E morreu o adjetivo;
    – E, no final das contas (ou melhor, das palavras), o compadre chegou à conclusão de que o amigo ainda estava sendo muito óbvio, já que todos podiam ver diante de si uma barraca repleta de peixes. Para que a designação, então? E feneceu o peixe, digo… o substantivo.
    Uma vez suprimidos todos os elementos da (ex-)oração – adjunto adverbial, verbo, adjetivo e substantivo –, ambos se convenceram de que, para algumas comunicações sucintas, as palavras sempre podem ser cortadas.
    Enfim, meu caro amigo, seu texto é tão embasado pela verdade quanto persuasivo! Mas deixemos esse vão (absoluto) de palavras defendido pelo compadre do feirante a essas causas de adágios e pequenas situações rotineiras, certo? Não que possamos tolerar o preciosismo (Monteiro Lobato também o combatia com veemência), mas nos permitamos o voo livre das palavras! Naturalmente sempre atentos (todos!) às armadilhas da prolixidade. 🙂 Mas creia, cronista, você possui (já liberado) o passaporte dos voos diretos entre distâncias curtas! Parabéns!

    Obs.: Apenas não concordo com a supressão do acento no voo (vôo – voo)! 😉

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  • 12/01/2013 em 11:33
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    Realmente, uma das fases criticas ao escrever é “cortar & editar” aquele monte de “coisas” no lugares que não deveriam estar. Sair “Facão” em mãos pela selva de palavras, construções e CORTAR! CORTAR!

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