A arte de cortar palavras: o retorno

Autorretrato de John Ruskin, 1862
Autorretrato de John Ruskin, 1862

Parece título de filme com Stallone, Schwarzenegger, Mel Gibson ou outro qualquer desses atores intelectuais, pura massa cinzenta, que passam o filme todo divagando sobre a obra de Nietzsche, Jung e Charcot, ou sobre os jogos de xadrez de Bobby Fischer, Capablanca ou Kasparov.

Ledo engano. Trata-se da continuação da minha crônica de sábado último, motivada pelo bom número de comentários que recebi concordando plenamente com minhas ideias sobre a chamada falsa intelectualidade.

Um dos melhores foi da escritora Sayonara Salvioli, que me enviou este delicioso texto de autoria do escritor e crítico inglês, John Ruskin — nascido em Londres, em 8 de fevereiro de 1819 —, que, descaradamente, reproduzo. Trata-se de um caso passado com um feirante de peixes em um porto da Inglaterra:

O homem chega ao mercado e lá encontra seu compadre, arrumando os peixes em um imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pode até comprar um quadro-negro para anunciar seu produto.

Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: “HOJE VENDO PEIXE FRESCO”.

Pergunta, então, ao amigo e compadre:

— Você acrescentaria mais alguma coisa?

O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante:

— Você já notou que todo o dia é sempre hoje? — e acrescentou:

— Acho dispensável. Esta palavra está sobrando.

O amigo aceitou a ponderação e apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto, “VENDO PEIXE FRESCO”.

Depois, retirou o verbo. Alegou que não havia necessidade do verbo vender, já que se encontravam em uma feira, onde tudo naturalmente é vendido. A frase ficou: “PEIXE FRESCO”.

— Me diga uma coisa. Por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira no cais do porto é a certeza de que todo o peixe, aqui, é fresco. E morreu também o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: “PEIXE”.

Mas por pouco tempo. O compadre ponderou que o amigo ainda estava sendo muito óbvio, já que todos podiam ver diante de si uma barraca repleta de peixes. E assim, feneceu o peixe, digo, o substantivo. O anúncio sumiu.

O feirante vendeu toda sua mercadoria e, suprimidos todos os elementos da oração — advérbio, verbo, adjetivo e substantivo —, ambos se convenceram de que, para algumas comunicações sucintas, as palavras sempre podem ser cortadas.

E por essa eu não esperava: o nosso Drummond se inspirou no britânico John Ruskin. Otto Lara Resende, também apreendi somente agora, garantia que Drummond lhe dissera que nunca afirmou que criara a frase “escrever é cortar palavras”, que lhe é atribuída. A usava por considerá-la genial.

E o mesmo se aplica aos que gastam muita saliva, não param de falar e são os donos da verdade universal. Para eles, nada melhor do que a frase do genial poeta, autor, ilustrador, diretor, compositor, autor do poema musicado por Joseph Kosma que se transformou em uma das músicas mais interpretadas em todo o mundo: “Les Feuilles Mortes”. O grande Jacques Prévert, um dos meus poetas mais queridos, escreveu:

“Se a palavra vale ouro, o silêncio é um diamante multicolorido.”

5 comentários em “A arte de cortar palavras: o retorno

  • 26/01/2013 em 14:20
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    EU CORTARIA O “MULTICOLORIDO”. VOCE JA VIU UM DIAMANTE QUE NAO O SEJA?Aprendi e vou guardar o recado. Cortar palavras.

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  • 19/01/2013 em 13:06
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    Sinto-me honrada, Paulo, pela menção em sua crônica. “…O retorno” (adorei a alusão de massa cinzenta aos astros do gênero de cinema assim caracterizado… ahahah!), neste caso trouxe uma feliz e substanciosa continuidade de argumento. Com a inserção de Ruskin, então, a sua abordagem ganhou ainda a propriedade do endossamento de séculos (dois anteriores) de Literatura! Enfim, a sua precisão cirúrgica no approach do tema tem antecedentes os mais significativos… De Ruskin (e certamente outros de seu tempo), Drummond e Otto Lara Resende a Paulo de Faria Pinho, o diamante da palavra adequada tem se mostrado ainda mais translúcido! Parabéns!

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