A analista de Corrêas

A verdade é que, pelo menos em determinadas circunstâncias, somos todos semideuses, mas não contamos para os outros, senão nos internariam num hospício.

Carmem Dametto, em Loucura: mito e realidade, que será lançado em breve pela KBR

 

Como vocês sabem, tenho muito amigos no Facebook, uma delícia para quem, como eu, foi sempre bastante impopular. Mas o que eu acho interessante, mesmo, é medir por lá o interesse geral das pessoas — como o Alan, que me confessou que só estava no JDate, site de encontros onde nos conhecemos na internet, para ver o que queriam as mulheres, o que transcrevo aqui como parte do Hierosgamos, que estou “revitalizando” agora com uma mudança de capa: “centenas de mulheres se expressando, estudei a sintaxe, a gramática… as perspectivas de cada uma… a palavra ‘simpático’ aparecia muito, e as descrições lembravam mais afetuosos animaizinhos de estimação do que propriamente mulheres” —, do que mais gostam ou aquilo que detestam, que as revolta, repele,  tudo através do simples ato de comentar ou deixar de fazê-lo.

No outro dia, por exemplo — e como sou mesmo neurótica, não consigo relevar nada, tenho que registrar para não deixar que se perca —, contei no meu mural a curiosíssima história de como foi criada a ideia da “partícula de Deus”, o tal bóson de Higgs cuja existência foi comprovada recentemente e que, aliás, seu próprio mentor confessou não saber muito bem para que serve: o cara passou dos 80, e a maturidade, como todos sabem, traz consigo em geral a razão, a não ser para aqueles que preferem fugir da iminente e inevitável ameaça de morte adotando para o resto da vida, que já não resta muita, a tática da ilusão.

Mas voltando ao Facebook, compartilhei lá essa história curiosíssima, ih, já estou me repetindo: o tal nome “divino” veio de um livro de Leon Lederman, Nobel de Física de 1988, sobre a dificuldade de se encontrar a tal partícula, a única que faltava para comprovar a teoria quântica do universo (que não tem nada a ver com o uso do termo que fazem os esotéricos, por favor) e que se chamava, ou deveria ter se chamado, acreditem, The Goddamn Particle, em tradução livre, A Partícula Danada, porque sempre escapava aos pesquisadores.

O caso é que no Facebook todo mundo levou o comentário na conta de que eu estava fazendo pouco de Deus, não do título do livro A partícula etc. etc., e não obtive um “curtirzinho” sequer. Teve gente que chegou a me escrever que eu faço um esforço tão grande para não crer que seria mais fácil acreditar e pronto. Então tá. Como se “fácil” fosse um critério bom o bastante para se adotar.

Pois o lobby divino é tão violento que o próprio Lederman, ao que parece, decidiu se aproveitar de seu “mau passo” e adotar de vez a conversa de “partícula de Deus”, que grudou na mente coletiva que nem carrapato — e não se encontra em lugar nenhum, a não ser bem escondidinha dentro do livro, a proposta original, muito mais interessante, argh, taí um exemplo da responsabilidade do editor, para o bem ou para o mal, para a iluminação ou para a obliteração final. Lamentável: transformar uma proposta intrigante num blablablá divinizante e emburrecedor .

Mas essa conversa toda é apenas um preâmbulo gigante para a ideia muito mais empolgante que eu queria lançar no “universo das ideias ambulantes”: a de que o verdadeiro editor, muito mais do que um simples comerciante, é na verdade um analista, não de textos, mas de seus autores, que através das dores da escrita, digo, da discussão das dores da escrita e de seus temores, leva à cura de muitos traumas (por trás dos) originais, ou, outras vezes, a uma loucura completa que jazia latente sob o rótulo de autor postulante, se é que vocês me entendem.

Isso, pra nem mencionar, já mencionando a Dra. Carmem no meu epitáfio, digo, na minha epígrafe aí em cima — ato falho, desculpem —, que me sentir analista, digo, semideusa, é um dos principais motivos por que me mantenho nesta louca rotina de revisionista, no segundo sentido do dicionário sobre a coisa, ah, deixa pra lá. Cada um que interprete como quiser, ou procure no Google se lhe convier.

Gosto de me sentir assim, senhora do bem e do mal, no mau sentido, mesmo, principalmente quando o mais óbvio sentido está em falta no (mercado do) livro. Fico assim, principalmente por só conhecer meus autores pela internet, como uma espécie insistente de “mágica de Oz” ­— uma criatura pequena, física e mentalmente, com seus podres poderes ampliados exponencialmente pelas artes da tecnologia. Ainda bem que na maioria das vezes dá certo, meu povo assente, ou eu nem teria um negócio para (me) sustentar.

E esta semana essa ideia recorrente do analista-editor de mentes deu um gigantesco passo à frente, e embora entre editor e autor esteja vigente a mesma confidencialidade de um padre, de um médico, advogado ou psicanalista, vou contar pra vocês a proposta que me fizeram, sem citar nomes ou detalhes indiscretos: me escreveu um candidato a escritor que se confessou, além de fã da KBR ­— condição sine qua non para ser ouvido sem restrição e com alguma paciência, mas não muita —, meio perdido na vida. Tendo saído de uma grave doença, e estando meio isolado, autoexilado da família e de seu país natal, pretendia que eu o ajudasse a encontrar um novo rumo na vida, de preferência o tornando um escritor, embora nunca tenha escrito uma só linha até o momento em que me escrevia.

Ah. Por favor. Até ser deus, confesso — ops, ser analista, ops, ainda não, ser editora, sim, finalmente acertei  —, cansa, de vez em quando. Por essas e outras é que afirmo a vocês — e assim muitos evitarão perder seu tempo com boas, mas inúteis intenções —, que para fazer parte do seleto clube terapêutico da KBR é necessário, além de uma boa dose de desejo de ser um dia publicado, ser realmente um escritor, pretender pelo menos viver para escrever.

Nossa, escrever traz um alívio danado, parece até terapia. O problema é que, bem mais que isso, tem que despertar no leitor algo além de simples simpatia, tocar um nervo comum, sabem como é, hic, bêbada. Ah, em tempo, algumas passagens desta crônica, não todas, poderiam ser rotuladas como “irônicas”, tá?

E um bom domingo procês.

 

 

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