Dívida de amor

Ah, esses olhos profundos e inquisidores, um lago plácido ao cair da tarde. Uma leve brisa faz tremer sua cor de folha seca tombada na floresta.

Tanto querem exprimir e questionar, há tanto espaço para o conhecimento, mas ainda muitos anos serão necessários para que obtenha as respostas, apenas algumas poucas, pois não nos foi dado esse privilégio de obtê-las todas.

O que será que eles querem saber? Mostram profundo amor e dependência. Às vezes, sinto-me impotente, sem conseguir atingir a compreensão de suas mudas inquisições, mas o garotinho parece complacente com meus limites: aceita e deixa prá lá.

A boquinha, uma flor retirada dos jardins do Éden, veio parar aqui, logo abaixo do biquinho. Tão linda, mas dá ainda mais alegria quando se abre em gargalhadinhas, gorjeios de uirapuru.

Tantos anos precisei viver, tantas estações se passaram, problemas, vida agitada por querer fazer tudo e conseguir, raivas felizmente passageiras, muitos amores com suas consequências e os desgastes inerentes, para, finalmente, atingir o privilégio de conhecer esse tipo de bem-querer.

Ele é meu amigo, gosta de mim e me respeita, um respeito conseguido através de carinho e atenção, tão diferente do tratamento que dispensei aos meus filhos, sem tempo, cansada, sonolenta, ansiosa pela vida que ainda teria pela frente com suas obrigações — mas os amei, e ainda amo demais, com o sentimento mais profundo que existe que é o amor de mãe, arrebatador, enorme, irracional, coisa de louco, sem explicação; e como brinde por tudo isso, ganhei um presente da vida.

Quando está em meus braços e sinto seu cheirinho, seu calor e a maciez de sua pele  sinto que estou no paraíso, e nem preciso sofrer para isso. Cada dedinho de sua mão gorduchinha já sabe a que veio, mas o cérebro ainda não, daí ser tão lindo ver o  seu esforço para concatenar os movimentos até conseguir atingir um objetivo simples, como tirar a tampinha de uma garrafa.

Nas pontinhas dos pés, que são obras de arte do criador, tenta alcançar um objetivo tão inatingível como o interruptor de luz; sinceramente, não dá para aguentar, tenho que ir apertar só um pouquinho e ele, pacientemente, espera que passe meu arroubo para continuar sua labuta.

Tão bonitinho com suas roupas novas imitando o papai, mas nunca tão lindo como quando peladinho no banho, dando corridinhas e gargalhadas, aspergindo água em mim até que seja pacientemente convencido de que já é hora, as pernoquinhas roliças e rosadas tremendo e procurando equilíbrio na água com sabão.

Você! Ah! Seu menino! Anjinho, querubim de igreja barroca brincando no céu.

Devo ter acertado alguma coisa nesta vida para receber esse presente.

São sentimentos tão contraditórios: está crescendo bastante? Engordou esse mês? Tomara que sim. Ah! Mas poderia ficar assim pequeninho para sempre.

Meu guri. Jamais poderei retribuir toda a alegria que você me traz, mas viverei para tentar.

Esta sua avó, enquanto viver, será sua devedora, e se possível for, depois de minha ida, ainda estarei te adorando do além.

 

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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