“Há males que vem para o bem”

É um clichê. E daí? É a pura verdade também. Dois ou três dias depois de ser expulso da primeira pensão onde morei em São Paulo encontrei essa outra, em frente à padaria da esquina. Esta pensão é melhor, o quarto é individual, maior do que o outro, mas sem banheiro particular; tem café da manhã, almoço e jantar. Às vezes, a gente precisa passar por uma merda qualquer pra poder melhorar!

É isso aí, cara. Comigo, pelo menos, sempre foi assim. O restaurante abre só pro almoço e é frequentado por gente que trabalha na região. Jantar, só para os moradores: tem uma sopa e mais alguma coisa que sobrou do almoço; quem quiser comer, vá se servir na cozinha. Eu nunca jantei, e o meu café da manhã sempre foi na padaria. Mas o almoço é bem legal.

No início de junho, eu tava voltando a dar aulas particulares de violão – até botei anúncio no jornal –, e  aproveitava o almoço para puxar conversa com alguém que eu achasse que iria se interessar em aprender a tocar. Foi assim que conheci duas mulheres numa mesa. Uma delas se chamava Aurora, disse que gostava de música e poesia, e eu senti que foi com a minha cara. A pensão nunca serviu almoço nos fins de semana, e Aurora me chamou pra almoçar naquele sábado num restaurante ali perto.  Era um restaurante chileno, onde um grupo de amigos chilenos e brasileiros se reuniam, sempre aos sábados; o encontro terminava numa festa folclórica com cachaça e música. Isso é comigo mesmo!

Fui lá almoçar e encontrar Aurora. A tarde foi muito legal, serviram umas cachaças chilenas, uns caras cantaram aquelas músicas lá deles e tudo o mais. No final, Aurora me disse que no sábado seguinte ia dar uma festinha à noite, no apartamento em que morava com uma amiga. Iam fazer uma coisa simples, um encontro de poucas pessoas pra bater papo, tocar violão e comer ‘empanadas’, só isso. Acontece que na próxima quinta-feira era dia do meu aniversário. Ótimo, eu já tinha onde comemorar!

No sábado, lá estava eu no apartamento da Aurora, em Pinheiros, onde encontrei um cara que eu já conhecia da boemia do Bixiga e que tinha sido namorado dela alguns anos atrás. Aurora era bem mais velha do que eu, e mais velha do que o cara também. Mas não parecia. Era uma figura bonita, que passava muita tranquilidade e sabedoria. Sabia das coisas pelo lado da poesia, da espiritualidade.

O boêmio do Bixiga era um careca muito simpático que, pelo jeito, tava a fim de namorar a Aurora de novo. Tocava violão também, e teve uma hora que ficou uma espécie de competição entre ele e eu pra ver quem agradava mais à Aurora.

É claro que eu tocava e cantava melhor do que ele, mas também não fiquei me exibindo muito: ia ser ridículo numa festa tão legal. Botaram uns discos de música brasileira e de música latino-americana, a Aurora se amarrava nessas músicas.

E as tais ‘empanadas’? Só na hora de comer é que foram fritadas e servidas quentinhas, uma maravilha! E já que eu tinha feito aniversário há apenas dois dias, me deram os parabéns, claro. Depois a Aurora, no meio de uma conversa, pegou um guardanapo de papel, escreveu alguma coisa nele e me deu de presente. Disse que era um poema de um cara que estava fazendo aniversário exatamente naquele sábado, só que não estava mais nesse mundo. O poema era assim: “Para ser grande, sê inteiro./ Nada teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa./Põe quanto és no mínimo que fazes./ Assim em cada lago a lua toda brilha,/ Porquê alta vive.”

O autor deste poema, que se chama “Ser grande”, é  Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa. Gostei muito do poema, mas ao mesmo tempo achei estranho que Aurora tivesse escrito uma coisa tão bonita num guardanapo de papel, fácil de rasgar e de perder. Guardei o guardanapo na carteira. Depois, passei a guardá-lo dentro de um caderno onde escrevia minhas letras de música. O guardanapo nunca se rasgou nem se perdeu. Nunca. Talvez por ser tão frágil, o guardei e conservei muito bem, como se o quisesse ter para sempre.

Mais tarde, descobri que Fernando Pessoa também escrevia seus poemas, muitas vezes, num pedaço de papel qualquer, e concluí que Aurora quis fazer exatamente como ele fazia.

Mas a vida vai se modificando, os anos se passando, e nunca mais vi Aurora. Um dia encontrei o boêmio careca, e ele me disse que  Aurora tinha morrido. Ela sofria do coração, e morreu justamente num mês de junho, um dia depois do aniversário de Fernando Pessoa.

Não sei o que existe – ou não existe – após a morte. Nem quero saber tão cedo… Mas gosto de imaginar que os dois devem ter feito uma grande festa lá no outro mundo. Foi por causa de Aurora, e do poema que ela me deu de presente, que eu passei a conhecer Fernando Pessoa.

Obrigado, Aurora. Obrigado, Pessoa. Um dia, quando eu já estiver vivendo como vocês, na altura da lua toda brilhante, a gente vai se encontrar, pra comemorar mais um aniversário.

Paulo Girão é compositor e escritor, autor da lendária “Glória ao Rei dos Confins do Além”, nome também do romance que lançará em breve pela KBR, com essa e outras histórias deliciosas.

 

 

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